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Calendário histórico

Setembro de 2020

"Esse foi o primeiro exemplo da ainda longe de perfeita “guerra relâmpago” de Hitler, a Blitzkrieg, uma guerra de movimentação rápida, liderada por tanques e divisões motorizadas com bombardeios que aterrorizavam as tropas inimigas e imobilizavam sua força aérea, sobrepujando um oponente de mentalidade mais convencional com a velocidade e força absolutas de um golpe nocauteador através das linhas adversárias.'"

(Richard Evans, "O Terceiro Reich em Guerra")

A Segunda Guerra Mundial teve início no dia 1 de setembro de 1939 com a invasão alemã da Polônia. O primeiro ataque ocorreu em Danzig, quando o navio SMS Schleswig-Holstein disparou contra militares poloneses. Na época, Danzig se localizava no “corredor polonês”, que separava a Prússia Oriental do restante da Alemanha e dava acesso ao mar Báltico. Era um território disputado, que fizera parte do Império Alemão antes da Primeira Guerra Mundial, portanto, um local altamente simbólico para a eclosão do conflito.

No mesmo dia, o tropas alemãs atravessaram as fronteiras polonesas em um ataque maciço orquestrado por três lados, sobrepujando o exército polonês. Os alemães tinham uma vantagem numérica, estratégica e também tecnológica. Para tornar a situação ainda mais desesperadora para os poloneses, a União Soviética também invadiu o país no dia 17 de setembro, ocupando o lado oriental, como havia sido previamente combinado no Pacto Alemão-Soviético. As últimas unidades polonesas se renderam no dia 6 de outubro. Cerca de 70 mil soldados poloneses morreram combatendo contra os alemães e mais cerca de 50 mil contra os soviéticos - em comparação com 11 mil baixas alemãs.

A anexação da Polônia foi recebida com entusiasmo na Alemanha, especialmente por conta dos alemães étnicos que viviam na Polônia e que haviam se tornado parte do Reich novamente. Para justificar a invasão, o Ministério da Propaganda divulgou amplamente casos de violência anti-alemã cometidos por poloneses, como mortes e detenções. Em uma ironia sinistra, a invasão se justificaria para proteger a população alemã de uma ameaça de genocídio.

“O objetivo primordial do comício era transmitir uma imagem coreografada da recém-descoberta unidade espiritual por meio de uma série de exibições gigantescas de imensas massas de homens movendo-se e marchando em uníssono, arranjados inflexivelmente em fila, ou parados pacientemente em enormes blocos geométricos no campo. E a intenção de Hitler e Goebbels era transmiti-la não só para a Alemanha, mas para o mundo”

(Richard Evans, “O Terceiro Reich no Poder”)

Os Congressos de Nuremberg foram encontros organizados anualmente pelo Partido Nazista e consistiram em grandes demonstrações propagandísticas que visavam passar uma ideia de unidade, força e patriotismo. A primeira dessas reuniões ocorreu em 1923, em Munique e, em 1934, Hitler determinou que o sexto congresso fosse filmado. O objetivo era reforçar a sua mensagem e ampliar o seu alcance, como aponta Richard Evans. Quem recebeu a incumbência de produzir o documentário do congresso foi Leni Riefenstahl, uma jovem atriz e diretora de cinema, que deveria ter, segundo Hitler, todo o apoio e aparato necessário para tal. Dispondo de 30 câmeras operadas por 16 cinegrafistas e assistentes e quatro canhões de som, “Riefenstahl fez um documentário como nenhum outro até então”. O filme teve um efeito considerado hipnótico e o título foi escolhido pelo próprio Hitler: O Triunfo da Vontade.

Evans aponta que a “vontade” em questão, de acordo com Riefenstahl, “era não só a do povo alemão, mas também e sobretudo de Hitler”. O monumentalismo do documentário é reforçado pelas imagens dos passos coordenados das massas durante o congresso, que moviam-se como “um único corpo”. Além disso, a diretora utilizou as imagens em ordem diferente de como ocorreram e indicou procedimentos ensaiados para gerar um efeito cinematográfico, alterando de maneira sutil a realidade demonstrada. Esta era, na verdade, menos glamurosa: bebedeira, baderna, lesões corporais e assassinato eram alguns dos acontecimentos que desenrolaram por trás das câmeras.

“A existência e a coexistência humanas viraram objeto de planejamento e administração; como plantas num jardim ou um organismo vivo, não podiam ser abandonadas à própria conta, do contrário seriam infestadas de ervas daninhas ou destruídas por tecido cancerígeno”

(Zygmunt Bauman, “Modernidade e Holocausto”)

Em 15 de setembro de 1935, foram promulgadas as Leis de Nuremberg. Elas consistiram em duas leis distintas: a Lei de Proteção do Sangue Alemão e da Honra Alemã e a Lei da Cidadania do Reich. A primeira proibia o casamento e criminalizava as relações sexuais entre judeus e não-judeus, visando impedir a “miscigenação” da raça germânica. Impedia, também, a contratação de empregadas alemãs com menos de 45 anos por judeus, inferindo que estes obrigariam as mulheres a cometerem atos de “poluição racial”. A segunda determinava que apenas pessoas com ascendência ou sangue alemão poderiam ser consideradas cidadãs do Reich. Assim, ela demarcava que os judeus não eram mais cidadãos, mas sim “súditos do estado”.

A definição era feita por meio do confuso mapeamento da árvore genealógica e não apenas da aparência, ainda que esta tenha sido continuamente mobilizada pelo Terceiro Reich para a identificação de judeus. Várias pessoas ficaram no “meio termo” dessas leis, configurando uma “raça mista”. Inicialmente, elas desfrutavam dos mesmos direitos que os alemães, mas eles foram paulatinamente retirados.

Essas leis reverteram o quadro de ganho de direitos civis que os judeus estavam vivenciando desde o século XIX, ainda que estes tenham historicamente enfrentado preconceitos, sejam eles religiosos ou raciais. Elas também serviram como base para futuras medidas antissemitas sancionadas na Alemanha nazista, que aprofundaram ainda mais a distinção entre judeus e alemães. Embora se referissem especificamente a este grupo, as Leis de Nuremberg também eram aplicadas aos negros e ciganos.

Como argumenta Bauman, os nazistas viram a sociedade como um jardim a ser moldado e, por meio da introdução de legislações raciais específicas, deram o pontapé inicial no processo de categorização e extermínio dos judeus na Europa.

“Passaram-se apenas alguns meses desde o colapso. Ainda não adquirimos o distanciamento no tempo, ou em nossas mentes, que nos permita julgar com alguma objetividade o que foi erro, culpa e crime, ou consequência do destino inevitável. Nós, os alemães, somos ainda muito dominados pelo preconceito. Apenas de maneira lenta, em choque, e com relutância estamos despertando da agonia destes últimos anos e reconhecendo a nossa situação e a nós mesmos. Procuramos nos absolver das responsabilidades por tudo o que levou a essa recente guerra, seus terríveis sacrifícios e medonhas consequências.”

(Erich Dethleffsen, chefe de operações do Alto-Comando do Exército)

O Partido Nazista só foi oficialmente declarado ilegal pelo Bloco Aliado meses após a capitulação alemã, mas já estava em colapso e desintegração há certo tempo. A abolição do Partido foi parte do processo de Desnazificação, que visava reconstruir a democracia alemã. Para esse fim, foi estabelecida uma corte internacional em Nuremberg. É importante mencionar que, além dos nazistas, o tribunal também pretendia julgar o próprio regime nazista e suas organizações.

À medida que esse processo se voltou do alto-escalão para a população em geral, os alemães fizeram um esforço de se distanciar do regime. De fato, a questão do grau de participação e apoio popular ao nazismo é complexa. Por um lado, Hitler teve um alto índice de aprovação por anos, assim como suas políticas. Por outro, o regime nazista foi, desde o começo, autoritário e muito violento. Demonstrações de dissidência eram regularmente punidas com a morte. De acordo com Ian Kershaw, pesquisas de opinião do pós-guerra mostram que muitos alemães acreditavam que o nacional-socialismo foi uma boa ideia que tinha sido mal conduzida e que Hitler teria sido um excelente líder se não tivesse começado a guerra.

Nem todo alemão era nazista, mas enquanto esteve no poder, o nazismo mobilizou paixões políticas profundas que já existiam, como o nacionalismo e o racismo. O decreto de ilegalidade foi um golpe de misericórdia, mas o que podemos constatar é que as questões subjacentes não foram resolvidas com a dissolução do Partido.

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