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Calendário histórico

Abril de 2020

“O boicote aos judeus, planejado para durar indefinidamente, foi no último minuto reduzido a uma ‘manifestação de alerta’ de 24 horas, em parte por medo às reações estrangeiras, mas em larga medida devido à evidente falta de entusiasmo popular pela aventura. [...] O ponto que não pode ser superestimado é que todas essas reações negativas à aberta exibição de violência antijudaica coexistiam, sem qualquer contradição visível, com uma forte aprovação em massa da legislação antijudaica - com uma redefinição legal do judeu, com a extirpação do judeu do Volk alemão e com camadas mais e mais espessas de restrições e proibições.”

(Zygmunt Bauman, “Modernidade e Holocausto”)

O boicote aos estabelecimentos judeus foi a primeira grande ação pública contra os judeus na Alemanha. Em 1 de abril de 1933, a ação, coordenada por membros do Partido e executada primordialmente por oficiais da SA, dezenas de lojas e sinagogas judaicas foram atacadas, “Estrelas de Davi” foram pintadas nas portas dos estabelecimentos e cartazes com os dizerem “Os judeus são nossa ruína” e “Não comprem dos judeus” foram afixados nas portas.

A principal justificativa dada à ação foi uma reação contra a influência dos judeus na sociedade alemã e da sensação de pertencimento desse povo a Alemanha. A partir dessa narrativa, os nazistas se colocavam como aqueles que estavam cumprindo um dever de libertação e preservação do país, assim como reforçaram um discurso salvacionista.
O boicote, todavia, planejado por tempo ilimitado, não teve boa recepção por parte da opinião pública na Alemanha e durou apenas um dia.

Contudo, a falta de apoio popular não significa a reação de uma sociedade que não concordava com ações antissemitas, mas sim, o desprezo por ações públicas e explícitas de violência. A violência sistematizada pela burocracia e longe dos olhos dos cidadãos dá, para cada um, a sensação de não ter nenhuma relação com aqueles acontecimentos. Uma atuação violenta tão explicitada como o boicote de 1º de abril gerou mais desconforto na população do que o expurgo e desaparecimento de centenas de milhares de judeus nos anos seguintes.

"Há muitas coisas consideravelmente piores do que a morte, e a SS cuidava que nenhuma delas jamais ficasse muito distante da mente e da imaginação de suas vítimas”

(Hannah Arendt, "Eichmann em Jerusalém")

Fundada no dia 4 de abril de 1925, as Schutzstaffel (Tropas de Proteção), conhecidas por sua abreviação SS, eram uma organização paramilitar ligada ao Partido Nazista e a Adolf Hitler. Sob a liderança de Heinrich Himmler e constituída sob o embasamento da ideologia nazista, as SS tinham como lema “minha honra chama-se lealdade”. A princípio o NSDAP tinha como organização paramilitar a Sturmabteilung (Tropas de Choque), conhecidas como SA, que tinham como função central proteger os membros mais importantes do Partido durante eventos e comícios. No entanto, após 1925, as SA foram gradualmente superadas pelas SS. Essa obediente organização se transformou em instrumento de terror no Terceiro Reich, atuando, principalmente, na execução do extermínio dos judeus, a “Solução Final da Questão Judaica”. Os camisas negras, como eram conhecidos, passaram a englobar outros órgãos de controle populacional nazista, como a Gestapo e a SD. A SS se tornou responsável por detectar os inimigos do Estado, pela neutralização da oposição, pelo policiamento da população e por prover inteligência doméstica e exterior. Também fazia parte da SS o seu exército próprio, as Waffen-SS, e as temidas SS-Totenkopfverbände (Unidades da Caveira), responsáveis pela administração dos campos de concentração e de extermínio.

Como lembra o historiador Christian Ingrao, em seu livro "Crer e destruir", sobre os intelectuais da organização: "a SS encarna o futuro da Alemanha. O que vale para a SS valeria amanhã para toda a Alemanha". Para isso, os futuros membros da SS precisavam passar por um rigoroso "exame raciológico" baseado no fenótipo, classificando-os numa escala de níveis, do "nórdico puro" à "suspeita de ascendência extraeuropeia". Esses homens da elite ariana representavam o futuro do Terceiro Reich e foram os principais responsáveis pelo Holocausto e pelo tratamento desumano dos cidadãos dos países ocupados pela Alemanha.

“A obsessão do regime para resolver ‘A Questão Judaica’, apesar da presença de pelo menos meio milhão de cidadãos alemães judeus, e a conexão feita pelo regime entre a redenção da Alemanha como nação e raça e [a necessidade de] trazer desgraça aos judeus, se tornou uma parte integral da reeducação do público alemão e preparação para a luta que estaria por vir.”

(Robert Gellately, “Dicionário Ilustrado da História do Terceiro Reich”)

A Lei para a Restauração do Serviço Público foi uma das primeiras legislações para restrição dos direitos dos judeus na Alemanha. Instaurada menos de 3 meses após a posse de Adolf Hitler como chanceler, ela previa que funcionários públicos que não fossem arianos tivessem aposentadoria compulsória ou fossem demitidos. A única exceção era para aqueles que já trabalhavam antes do início da Primeira Guerra ou que lutaram no front pelo Reich Alemão ou por países aliados.

Nos dias e meses subsequentes, vários decretos de implementação da lei foram determinados. O primeiro, de 11 de abril, determinava que um “expert” em questões raciais fosse consultado caso a ascendência ariana fosse colocada em questão. O terceiro decreto de implementação de 6 de maio abria outro adendo: relações conjugais também passariam a ser avaliadas para a classificação racial do funcionalismo público.

A Lei para a Restauração do Serviço Público traz em seu título a ideia do que o Nacional-Socialismo queria fundar: estariam restaurando um serviço público corrompido pelos judeus. Posteriormente, o mesmo discurso seria utilizado para com as universidades, as igrejas e todas a sociedade alemã. Retirar os judeus do serviço e da administração pública nos primeiros meses de 1933 era uma fagulha do que estaria por vir.

“Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. [...] Isso pode ser atribuído à estranha noção, efetivamente muito comum na Alemanha, de que ser respeitador das leis significa não apenas obedecer às leis, mas agir como se fôssemos os legisladores da lei que obedecemos”'

(Hannah Arendt, “Eichmann em Jerusalém”)

Adolf Eichmann foi raptado em Buenos Aires em 11 de maio de 1960 e levado a julgamento na Corte Distrital de Jerusalém em 11 de abril de 1961, sob as acusações de crime contra os judeus, crime contra a humanidade e crimes de guerra. O nazista havia fugido para Argentina em 1950 com um visto da Cruz Vermelha. Considerado culpado e condenado a morte, foi enforcado em 1 de junho de 1962.

Eichmann era membro do alto escalão da SS e conhecido como um “perito nas questões judaicas”. Foi responsável pela deportação de milhões de judeus e poloneses e esteve presente na Conferência de Wansee em 1942, na qual funcionários nazistas e da SS definiram a “Solução Final para a Questão Judaica”, a saber, a deportação e extermínio dos judeus das regiões ocupadas.

O julgamento-espetáculo de Eichmann foi televisionado internacionalmente e seguiu a linha interpretativa do pós-guerra de considerar os nazistas como lunáticos e aquém da civilização ocidental. A filósofa Hannah Arendt fez a cobertura do julgamento pela revista The New Yorker, culminando no livro “Eichmann em Jerusalém: um retrato sobre a banalidade do mal”. Esperando encontrar um monstro, Arendt se surpreende ao ver um burocrata absolutamente normal, um “dente na engrenagem”, um homem que apenas cumpria ordens sem refletir sobre seu significado. Ele representa a banalidade do mal: a ausência de pensamento e de julgamento que pode fazer com que um indivíduo medíocre cometa crimes de enormes proporções sem sentir culpa. O mal banal ainda nos assombra, já que, como alerta Arendt, os maiores crimes são aqueles cometidos por Ninguém.

"O mundo dos campos da morte e a sociedade que os engendra revelam o lado progressivamente mais obscuro da civilização judaico-cristã. Civilização significa escravidão, guerras, exploração e campos da morte. Também significa higiene médica, elevadas ideias religiosas, belas artes e música requintada. [...] Em nosso tempo, as crueldades, como muitos outros aspectos do nosso mundo, passaram a ser administradas de maneira muito mais efetiva que em qualquer época anterior. Não deixaram e não deixarão de existir. Tanto a criação como a destruição são aspectos inseparáveis do que chamamos civilização"

(Richard L. Rubenstein, "The Cunning of History")

No dia 12 de abril de 1945, soldados estadunidenses tomaram o controle do campo de concentração de Buchenwald. Construído em 1937, o campo tomou notoriedade pelo trabalho forçado de seus prisioneiros. Inicialmente, Buchenwald recebeu apenas prisioneiros políticos mas, após a Noite dos Cristais, pogrom organizado em 1938 pela SA, foram enviados cerca de 10 mil judeus para o campo, dos quais 255 teriam morrido devido a maus tratos perpetrados por oficiais da SS.

A partir de 1941, foi empreendido um programa de experiências médicas no campo, visando o teste de vacinas e de tratamentos contra doenças infecciosas, como o tifo. Em 1944, o médico dinamarquês Carl Vaernet iniciou uma série de experiências de transplantes hormonais que supostamente "curariam" os detentos homossexuais. De Buchenwald, eram controlados cerca de 88 campos em diversas localidades e os prisioneiros considerados incapazes de trabalhar eram enviados para campos de extermínio próximos.

Com o avanço das tropas soviéticas sobre a Polônia no final da guerra, Buchenwald recebeu prisioneiros de outros campos, como Auschwitz e Gross-Rosen, que estavam sendo evacuados. Finalmente, com a aproximação das tropas estadunidenses em abril de 1945, 28 mil pioneiros foram evacuados pelos nazistas, dos quais um terço morreu de exaustão nas caminhadas de transferência ou foram assassinados. No dia 11, as tropas chegaram ao local e, no dia 12, membros da 80ª Divisão de Infantaria tomaram o controle do campo.

"O Japão travou duas guerras no século XX. Em uma, saiu vitorioso. Na outra, foi derrotado. A história da Guerra Russo-Japonesa de 1904-1905 hoje é passado, mas os eventos que levaram à decisão imperial de terminar a Guerra do Pacífico em 1945 ainda não estão sepultadas nas páginas da história"

(Lester Brooks, "História secreta da rendição japonesa de 1945")

No dia 13 de abril de 1941, foi assinado o Pacto Nipônico-Soviético, um tratado de neutralidade entre União Soviética e Japão após um histórico de hostilidades. O embate entre as potências remete à Guerra Russo-Japonesa, conflito ocorrido entre 1904 e 1905 no qual ambos disputaram pelo controle da Manchúria e de territórios na China, que terminou com a vitória nipônica. Desde então, os países viviam em atrito por terem interesses em regiões comuns, como foi o caso da Coreia, que posteriormente tornou-se um protetorado japonês.

A anexação da Manchúria pelo Império Japonês, em 1931, e a posterior criação do Estado fantoche de Manchukuo provocou grande instabilidade e fez com que a União Soviética ficasse temerosa em relação a uma possível expansão japonesa sobre o seu território. Assim, as defesas soviéticas na ferrovia Transiberiana, que levava até a China, foram reforçadas, e ainda foram enviados mais de cem mil homens para a fronteira no Extremo Oriente da URSS. O episódio decisivo para a assinatura do tratado foi a Batalha de Khanlkhin Gol, que se deu na fronteira de Manchukuo e da Mongólia pró-soviética. Tropas da URSS agiram em favor da Mongólia e foram vitoriosas contra as forças japonesas.

Com o fim do conflito, foi assinado o pacto entre Japão e União Soviética, que estipulava a neutralidade dos dois países em caso de guerra com um terceiro por um período de cinco anos. A invasão nazista à URSS poderia ser considerada um desrespeito ao pacto, uma vez que o Japão era aliado da Alemanha. De todo modo, em 5 de abril de 1945, a União Soviética declarou que não renovaria o pacto, e cerca de quatro meses depois, declarou guerra ao Império Japonês, mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.

"Quando o dia começou a clarear, canhões soviéticos começaram a bombardear a Chancelaria do Reich. Os comandantes militares disseram a Hitler que tudo estaria acabado ao fim do dia. Depois do almoço, Hitler se despediu de seus secretários. [...] Ele se retirou para seu estúdio com Eva Braun às três e meia da tarde. Abrindo a porta uns dez minutos depois, o secretário de Hitler, Heinz Linge, na companhia de Bormann, encontrou o corpo de Hitler no sofá, sangue correndo de um buraco na sua têmpora direita, a pistola a seus pés; o corpo de Eva Braun estava ao lado do dele, exalando um forte cheiro de amêndoas amargas"

(Richard Evans, "O Terceiro Reich em Guerra")

Em 16 de abril de 1945 teve início a ofensiva militar que definiu o fim da Segunda Guerra Mundial: a Batalha de Berlim, que teve como protagonista as tropas soviéticas que estavam a cerca de 60km da capital do Reich desde fevereiro. A estratégia do ataque era cercar Berlim pelo leste, norte e sul, isolando as tropas alemãs que estavam na cidade. O exército alemão já estava extremamente desfalcado, seus soldados, fracos, e as motivações, esparsas. Como aponta o historiador Richard Evans, a influência de Hitler sobre a sociedade naquele momento era mínima, e até mesmo os defensores do regime estavam criticando o Führer. A descrença na vitória era generalizada e, com o início do bombardeamento do centro de Berlim, em 20 de abril, as chances da Alemanha eram nulas.

20 de abril era também o aniversário de Adolf Hitler, que proibiu as comemorações costumeiras. A ordem do Führer, dada em 11 de março de 1945, era para dar um exemplo ao mundo: caso fosse necessário, cair, mas lutando. A ordem foi obedecida, mas a grande custo para os 450 mil alemães, entre civis e soldados, que foram mortos, feridos, ou desapareceram. Berlim resistiu por doze dias após os ataques no centro da cidade e, nesse período, membros do alto escalão nazista, paulatinamente, debandaram. Em 30 de abril, Hitler e sua esposa, Eva Brown, cometeram suicídio, para que o Führer não fosse capturado pelos soviéticos. Em 2 de maio, Berlim se rende, sinalizando a incondicional derrota alemã.

“Eu via as chamas do gueto subindo em labaredas durante toda a noite. Vi imagens que ficaram gravadas na minha mente para sempre: alguns judeus corriam de um lado para o outro sem saber o que fazer, outros pulavam dos prédios em chamas, e eu não podia fazer nada. As chamas invadiam o gueto. Como os alemães não conseguiram dominar a resistência judaica nas ruas, eles começaram a atear fogo em tudo, quarteirão a quarteirão. [...] Nós víamos os tanques entrando e saindo, algumas ambulâncias chegando e indo, e ouvíamos o tiroteio. Naquele momento nós soubemos que tínhamos que fazer com que o mundo tomasse conhecimento do que estava acontecendo.”

(Vladka Meed, membro do movimento juvenil Zukunft, ligada ao Partido Socialista Judaico, o Bund)

O Gueto de Varsóvia foi o maior gueto estabelecido sob população judaica na Alemanha Nazista e recebeu milhares de judeus durante a guerra, a partir da ocupação da Polônia em 1939. Em seus anos de existência foi palco da fome, de doenças e de deportações dos seus habitantes para campos de extermínio, bem como do ato de resistência conhecido como o Levante do Gueto de Varsóvia, ocorrido em 1943. O levante tinha como objetivo opor-se a ocupação nazista na Polônia, que nesse ponto havia intensificado a transferência dos judeus para o campo de extermínio em Treblinka.

No dia 19 de abril de 1943, data em que oficiais alemães iriam encaminhar outra leva de judeus ao campo, um grupo expressivo de judeus, apesar de enfraquecidos pela fome e pelas doenças, optaram por resistir a ofensiva nazista. Durante o embate, oficiais da SS (Tropas de Proteção) e as forças policiais arrasaram todo o gueto, queimando edifícios e tudo que poderia ser usado como esconderijo. Os resistentes realizavam ataques que diminuíram gradativamente, devido ao aumento da repressão nazista.

A força judaica conseguiu resistir por quase um mês, mesmo com recursos limitados em relação aos oficiais alemães. Assim, no dia 16 de maio de 1943 a revolta encontrou o seu fim, com o gueto em ruínas e o assassinato de milhares de judeus, mas também com um marco da resistência judaica ao extermínio nazista.

“Em parte alguma o terror nazista foi mais visível que no poder emergente e na temível reputação da Gestapo. O papel da polícia de caçar e capturar infratores políticos e outros tornou-se mais central ao aparato repressor do regime quando a primeira onda de violência em massa dos camisas-pardas refluiu. A Gestapo em especial atingiu rapidamente um status quase mítico como um braço onividente e onisciente da segurança do Estado e da aplicação da lei. As pessoas logo começaram a suspeitar de que houvesse agentes em cada pub e clube, espiões em cada local de trabalho e fábrica, informantes esgueirando-se em cada ônibus e bonde e parados em cada esquina.”

(Richard J. Evans, “O Terceiro Reich no poder”)

Fundada em 26 de abril de 1933, a Gestapo (Geheime Staatspolizei), Polícia Secreta do Estado, era inicialmente uma ramificação da Polícia prussiana, atuando como polícia federal. Foi somente durante a liderança de Hermann Göring que a organização assumiu um caráter político, ao tornar-se aliada da SS (Tropas de Proteção) em 1934, comandada por Heinrich Himmler. Assim, a Gestapo expandiu a sua atuação, sendo operada em toda a Alemanha e suprindo a necessidade do regime nazista de controlar e silenciar os seus adversários políticos. Suas demandas tinham prioridade sobre as de outros setores, tendo como alvo, a princípio, os comunistas, social democratas e demais inimigos políticos.

A Gestapo também funcionou como vigilância interna, o que converteu suas investigações em arma na disputa de poder dentro do partido, apesar de ter como ênfase a perseguição política. A Polícia Secreta empreendeu diversas ações em conjunto com a SS antes da guerra, como os boicotes econômicos as lojas de judeus e interrogatórios e sessões de tortura aos inimigos do Reich. Todavia, foi durante a guerra que sua atuação no controle social foi radicalizada, detendo mais poder e destaque. Himmler articulou todos os serviços de segurança sob o controle da SS, através da criação do RSHA (Escritório Central de Segurança do Reich), intensificando suas atividades, bem como o temor geral em relação aos agentes e espiões da Gestapo.

“Gostaria de pensar que, se eu estivesse vivido naquela época, seria um anti-nazista convicto envolvido na luta clandestina de resistência. No entanto, eu sei que na verdade teria ficado tão confuso e me sentiria tão impotente quanto a maioria das pessoas sobre as quais estou escrevendo hoje”

(Ian Kershaw, “Popular opinion and political dissent in the Third Reich”)

Hoje comemoramos o aniversário do historiador inglês Sir Ian Kershaw. Nascido em Manchester e tendo seu doutorado concluído em Oxford, Kershaw passou boa parte de sua carreira sendo um medievalista, mudando completamente o rumo dos seus estudos somente nos anos 1970, quando passa a focar no século XX e no regime nazista. Foi professor de História Moderna na Universidade de Sheffield até sua aposentadoria e um grande discípulo de Martin Broszat, fazendo parte do “Projeto Bavária”, no qual iniciou suas reflexões sobre a visão dos cidadãos comuns acerca da figura de Hitler, culminando em obras importantes como “The ‘Hitler Myth’: Image and Reality in the Third Reich” (1987) e “Popular Opinion and Political Dissent in the Third Reich” (1983).

 

Como Broszat, Kershaw faz parte da linha de historiadores que tenta compreender a (des)organização do regime nazista em conjunto com a construção da imagem de Hitler. A partir da análise de Max Weber, usa do conceito de personalidade carismática para compreender o “trabalhar em direção ao Führer”, uma ideia que poderia querer dizer uma gama de coisas, servindo para “canalizar uma variedade de motivações sociais, às vezes contraditórias e conflitantes, para promover - intencional ou involuntariamente - os objetivos nazistas intimamente associados às obsessões ideológicas de Hitler”. Ian Kershaw é uma das maiores e mais reconhecidas referências sobre Terceiro Reich. Seus trabalhos incluem a monumental biografia de Hitler (2008), “Hitler, the germans and the final solution” (2008) e “De volta ao Inferno: Europa, 1914-1949” (2015). Também foi conselheiro histórico nas séries da BBC “The Nazis: a warning from history” (1997) e “War of the century” (1999).

“Não vai valer a pena viver no mundo que surgirá depois do Líder e do nacional-socialismo, e por isso levei meus filhos. [...] Agora temos somente um objetivo: lealdade até a morte para com o Líder. O fato de podermos terminar nossa vida com ele é uma misericórdia do destino pela qual não ousávamos esperar”

(Carta de Magda Goebbels antes de seu suicídio, 1945)

Em 30 de abril de 1945 Adolf Hitler se suicida no bunker nazista em Berlim.

Em seus últimos meses de vida, Hitler não se assemelhava em nada ao grande Führer do Terceiro Reich. De acordo com o arquiteto e ministro do armamento Albert Speer, “até mesmo sua voz ficou trêmula e perdeu seu antigo tom de comando. Sua força tinha cedido lugar a um jeito hesitante e monótono de falar”. As tentativas de assassinato de 1944 aceleraram a doença de Parkinson e em seus últimos dias, Hitler parecia completamente entregue à histeria. Seu séquito, cada vez mais reduzido, acompanhava com apreensão as reuniões para definir estratégias de tropas que nem sequer existiam e a crença irracional em uma vitória milagrosa da Alemanha na guerra.

Sua última aparição pública foi no seu 56º aniversário em 20 de abril de 1945. No dia 30, Hitler foi encontrado pelo seu secretário com um tiro na têmpora direita, ao lado de Eva, com quem havia se casado no dia anterior, que havia ingerido veneno. Seguindo as instruções do Führer, seus corpos foram queimados.

Seguiu-se uma onda de suicídios nunca antes vista na história moderna. Não apenas membros do alto escalão mas cidadãos comuns escolheram a morte. Como lembra Melita Maschmann, membro da Juventude Hitlerista, “eu tinha plena convicção de que não iria sobreviver ao ‘Terceiro Reich’. Se ele fosse condenado a desaparecer, então eu também seria”. Ainda motivo de especulação por negacionistas até os dias de hoje, as últimas horas de Hitler são descritas de maneira similar pelos historiadores nos livros “O Terceiro Reich em Guerra” de Richard Evans, “No bunker com Hitler” de Joachim Fest que serviu como base para a obra cinematográfica de 2004 “A queda” e na biografia de Hitler de Ian Kershaw.

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