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Calendário histórico

Fevereiro de 2020

"É tempo mau quando o mundo, mudo, deixa acontecer a injustica. Quando a opressão dos pobres e miseráveis clama aos céus e os juízes e senhores da terra ficam calados. Quando a comunidade perseguida clama por ajuda e os seres humanos por justiça, mas nenhuma boca se abre para faze-la”.

(Dietrich Bonhoeffer, Sermão de 11 de julho de 1937)

No dia 04 de fevereiro de 1906 nasceu Dietrich Bonhoeffer, um dos principais expoentes da resistência religiosa na Alemanha Nazista. Protagonista no grupo de resistência dentro das igrejas, a Igreja Confessante, o pastor luterano é considerado hoje um dos mais importantes teólogos do século XXI, tendo escrito clássicos da literatura cristã como "Discipulado" e "Vida em Comunhão". A responsabilidade para com o outro e uma teologia e prática religiosa que ultrapassasse os muros da igreja davam o tom de seus escritos e de sua própria vida. Responsável por discursos públicos, sermões e memorandos contra os nazistas, Bonhoeffer foi membro do grupo de resistência liderado pelo líder da inteligência alemã Wilhelm Canaris que planejou um golpe e, posteriormente, o assassinato de Adolf Hitler.

 

Enforcado no campo de concentração de Flossenbürg por auxiliar na fuga de judeus e por sua participação na conspiração, a vida e ação de Dietrich Bonhoeffer nos mostram que o discurso religioso tão utilizado no período - e não só - como forma de oprimir os já silenciados, pôde ser fermento para uma resistência ativa contra o totalitarismo.

“A nação está pronta para qualquer coisa. O Führer ordenou, e nós o seguiremos. Nesta hora de reflexão e contemplação nacional, acreditamos firmemente e inabalavelmente na vitória. Nós a estamos vendo diante de nós, precisamos apenas alcançá-la. Devemos decidir subordinar tudo a isto. Esse é o dever do momento. Que ou slogan seja: agora, o povo se levanta e solta a tempestade!”

(Joseph Goebbels, discurso em 1943)

No dia 18 de fevereiro de 1943, 16 dias após a derrota na Batalha de Stalingrado, o Ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, fez uma proclamação que ficou conhecida como o Discurso do Sportpalast (palácio de esportes), em referência ao local de onde foi feita. Um grande cenário foi montado para a ocasião, uma vez que sua fala seria gravada para transmissão em rádio e cinemas. No discurso, ele procura animar a população diante das grandes perdas no front do Leste, exaltando os soldados mortos em Stalingrado como alemães exemplares.
Foram reafirmados ideais do Nacional Socialismo, como o antissemitismo e o anticomunismo, e foi proclamada uma guerra total contra os inimigos do Reich. A guerra total é uma noção que existe desde a Primeira Guerra Mundial, marcada pela suspensão de valores morais e códigos éticos, mobilização extrema de recursos humanos e materiais, forte propaganda e pelos objetivos totais de vitória e rendição inimiga.

 

Recentemente, o ex-Secretário da Cultura, Roberto Alvim, fez muitas referências a um discurso de Goebbels proferido em maio de 1933. Nele, Goebbels exalta a arte germânica e defende um nacionalismo exacerbado. Seu objetivo era nortear a produção dos artistas alemães e censurar aquelas que não seguiam suas diretrizes, considerando como degeneradas as que não estavam de acordo com o ideal nacional socialista. Alvim utiliza as mesmas ideias para se referir à arte brasileira, comportando-se como Goebbels durante a fala. Este evento nos mostra que a ideologia que povoou a Alemanha nazista continua viva até os dias de hoje, nos atentando para a responsabilidade de conhecer a nossa história, e nos defendermos de valores tão nefastos.

"As circunstâncias me obrigaram a falar durante décadas quase que exclusivamente de paz. Somente através da ênfase contínua no desejo alemão de paz e intenções de paz foi possível para mim fornecer ao povo alemão os armamentos que sempre foram necessários como a base para o próximo passo"

(Adolf Hitler, discurso em 1938)

Em 19 de fevereiro de 1941, ocorreram as três noites de blitz, um ataque aéreo massivo da Luftwaffe, a força aérea alemã, contra a cidade de Swansea, no País de Gales. Entre 7 de setembro de 1940 e 10 de maio de 1941, foram realizadas várias blitz contra a Grã-Bretanha, mas a tática também foi utilizada em outros países, como a França, a Holanda, a Dinamarca e a Polônia. Elas consistiam em um novo método de guerra, no qual a força aérea, auxiliada por blindados e pela infantaria, forçava a entrada em território inimigo, de forma rápida e potente, utilizando o fator surpresa para avançar no território e atacar. No caso do Reino Unido, a força aérea teve um papel fundamental, pois os ataques da campanha aconteceram apenas pelo ar.

 

A palavra blitz é uma contração da palavra alemã blitzkrieg, que quer dizer ataque relâmpago. Na ofensiva em questão, as três noites de intensos bombardeios duraram um total de 13 horas e 48 minutos, e arrasou o centro de Swansea, deixando 397 feridos e 230 mortos. Embora tenham conseguido atacar com sucesso diversas cidades na Grã-Bretanha, o objetivo geral das missões fracassou: os alemães não conseguiram atingir uma superioridade bélica em relação à força aérea britânica, tampouco atingir a moral desse povo no intuito de facilitar uma invasão por terra. Ao final de 1941, as perdas do lado alemão já estavam muito altas e a ameaça de uma iminente invasão da União Soviética fez com que as forças militares da Alemanha fossem direcionadas para o leste, encerrando as blitz contra o Reino Unido.

“A reputação alemã ficará para sempre maculada se a juventude alemã não se elevar, não se vingar, não se redimir, não esmagar seus algozes para construir uma nova Europa espiritual, de uma vez por todas”

(Sexto panfleto, 1943)

Em 18 de fevereiro de 1943, os irmãos Hans e Sophie Scholl foram para a Universidade de Munique carregando uma mala com 1600 exemplares de um panfleto de resistência. Eles colocaram montes de panfletos nas portas das salas, nas escadas e os lançaram do segundo andar, espalhando centenas de páginas pelo hall de entrada. As portas das aulas se abriram segundos depois e, antes que eles conseguissem se perder na multidão, foram avistados pelo zelador e membro do NSDAP, Jakob Schmid, que acionou a Gestapo, levando os irmãos para a prisão. Christoph Probst foi preso no dia seguinte, após a Gestapo conseguir recuperar o rascunho do sétimo panfleto escrito integralmente por ele, que Hans havia tentado rasgar para não incriminar o amigo. Hans, Sophie e Christoph foram executados em 22 de fevereiro de 1943 e se seguiram as sentenças e as execuções dos outros membros do grupo de resistência conhecido como A Rosa Branca: Alexander Schmorell, Willi Graf e o professor Kurt Huber.


A resistência da Rosa Branca se deu por meio de panfletos durante os anos de 1942 e 1943 e todo o processo da ação panfletária era feito pelos estudantes, que custeavam a produção e se revezavam durante a madrugada para fazer cópias dos escritos. A memória produzida sobre eles explorou intensamente a ideia de que era possível resistir e de que eles representavam a outra Alemanha, a Alemanha que não era nazista. Dentro da Alemanha, a Rosa Branca não atingiu a desejada onda de revolta após a execução de seus membros, mas o que Robert Scholl disse a seus filhos se provou verdadeiro: eles entraram para a história. Como um símbolo de resistência moral, de heróis que morreram por seus ideais, “por uma causa que também é nossa”, a causa da liberdade essencial humana mesmo sob um regime de opressão.

"Aquele que em face do perigo se sente absolutamente seguro já está a caminho de sucumbir diante dele. O destino da Alemanha poderia servir de experiência para todos. Se ao menos essa experiência pudesse ser compreendida! Não somos uma raça pior. Em todo lugar, pessoas têm características parecidas [...] Mas, com o distanciamento da preocupação daquele que tombou, volta a si e raciocina, pensamos: que os outros não sigam caminhos desse tipo"

(Karl Jaspers, “A questão da culpa”, 1946)

Karl Jaspers foi um influente filósofo existencialista do século XX, que acreditava que a integração da filosofia e da ciência era algo essencial na compreensão do homem e da vida. Nascido em 23 de fevereiro de 1883 em Oldemburgo, na Alemanha, Jaspers formou-se em medicina e trabalhou no hospital psiquiátrico da Universidade de Heilberg. Tornou-se professor de psicologia da Faculdade de Letras da mesma instituição em 1921, mas foi afastado do cargo por razões políticas em 1937, durante o regime nazista. No fim da guerra, em 1945, voltou ao cargo, onde permaneceu por três anos até ir lecionar filosofia na Universidade da Basileia, na Suíça. Algumas de suas mais importantes obras são "Filosofia", "Orientação Filosófica do Mundo", "Explicação da Existência" e "Razão e Existência".

 

Além de seu pensamento existencialista, influenciado em parte por Nietzsche e Kierkegaard, Jaspers escreveu, em sua obra "A questão da culpa: a Alemanha e o nazismo", sobre o povo alemão e o nazismo, abordando a desumanização do outro e a culpa que os alemães carregariam, enquanto uma nação, pelos fatos e atrocidades que aconteceram no regime de Hitler. Vale ressaltar que Jaspers estabeleceu forte diálogo com Hannah Arendt, a quem orientou em 1928, em sua tese de graduação. Jaspers faleceu em 26 de fevereiro de 1969, na Basiléia. Uma das principais reflexões que o filósofo nos deixa é sobre a necessidade de abordar a culpa e “extrair dela consequências pertinentes”, pois somos todos parte da humanidade e, por isso, não podemos ficar indiferentes a ela. “Nossa dignidade humana nos obriga a isso”.

“O movimento tem que educar os seus adeptos de tal maneira que, na luta, vejam a necessidade do emprego dos maiores esforços. Não devem temer a inimizade do adversário, mas considerá-la como condição essencial para a sua própria existência. Não se devem atemorizar pelo ódio dos inimigos da nação, mas sim desejá-lo no mais íntimo da alma. Na manifestação externa desse ódio só há mentira e calúnia. Quem não é atacado nos jornais judeus, por eles caluniado e difamado, não é um alemão independente, não é um verdadeiro Nacional Socialista."

(Adolf Hitler, “Mein Kampf”, 1926)

Fundado 24 de fevereiro de 1920, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP) já contava com a liderança de Adolf Hitler e seu empenho na conquista do poder político na Alemanha. Desde o início da formulação do Partido, Hitler demonstrava muitos ideais que seriam empregados posteriormente no regime nazista, definindo adeptos e inimigos do movimento e colocando pautas o antissemitismo, antimarxismo e críticas a República de Weimar. Dentro do movimento Nacional Socialista Hitler defendia principalmente a restauração do espírito nacional germânico, além da construção de um movimento antiparlamentarista que se basearia na autoridade indiscutível de um chefe.

 

Junto a fundação do NSDAP foram adotados os 25 pontos do programa do Partido Nazista, que também entraram em voga a partir de 1920. Esses pontos tratavam de objetivos do movimento, tais como o rompimento do Tratado de Versalhes, a formação da Grande Alemanha baseada na autodeterminação dos povos e da raça germânica. Além de demonstrar essas ideias dentro do partido, Hitler também as deixou registrados em seu livro Minha Luta (Mein Kampf). Em diversos capítulos o Führer disserta sobre como o movimento deve se organizar e, principalmente, como deve conquistar as massas, afirmando que um movimento que almeja o reerguimento do Estado alemão deve se direcionar, sobretudo, às grandes massas, pois acreditava que “a Alemanha se tornou fraca, não porque lhe faltassem armas, mas porque lhe faltou o ânimo de manejá-las para a conservação nacional”.

“A hora de esmagar isso [o comunismo] está chegando”
(Afirmação de Hitler para a SA, 2 de fevereiro de 1933)

Na noite de 27 de fevereiro de 1933, os alemães viam a fumaça do incêndio do Parlamento como uma confirmação da morte da democracia e da república na Alemanha. As investigações desembocaram no jovem holandês de 24 anos Marinus van der Lubbe. Tendo relações com comunistas, a prisão de Van der Lubbe se tornou a justificativa para a consolidação de um poder autoritário perante uma suposta “grande conspiração comunista”. Hoje é praticamente consenso na historiografia sobre o tema que a atitude de Van der Lubbe se deu a partir de uma iniciativa individual. Tal versão, no entanto, era veementemente rejeitada pelos nazistas. No dia seguinte, 28 de fevereiro de 1933, foi instaurado pelo governo o Decreto do Presidente do Reich para a Proteção do povo e do Estado, conhecido hoje como Decreto do Incêndio do Reichstag ou Decreto de Emergência. Com este, foi declarado na Alemanha estado de emergência e todos os direitos constitucionais suspensos. Jornais da oposição se tornaram proibidos e a esfera pública esvaziada de liberdades democráticas.

O Decreto de Emergência preparou o terreno para a instauração de diversas legislações excludentes e antidemocráticas nos meses subsequentes. O incêndio do Reichstag é o momento chave para o estabelecimento dos nazistas no poder. O Reichstag foi constituído na República de Weimar como uma instituição que encarnasse as diferenças políticas e a pluralidade de partidos. As cinzas do Parlamento entoavam a morte da liberdade política na Alemanha.

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