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Calendário histórico

Março de 2020

"Os campos de concentração são os laboratórios experimentais da dominação total, pois, sendo a natureza humana o que é, esse objetivo só pode ser alcançado sob as circunstâncias extremas de um inferno feito pela mão do homem. A dominação total só é alcançada quando o ser humano, que de alguma maneira sempre é uma mistura de espontaneidade e condicionamento, foi transformado num ser completamente condicionado, cujas reações podem se calculadas mesmo quando ele é levado à morte certa"

(Hannah Arendt, "As técnicas sociológicas e o estudo dos campos de concentração", 1950)

Em 3 de março de 1945, tropas aliadas libertaram o campo de prisioneiros existente em Forbach, cidade no sudeste da Alemanha. O campo pertencia ao XII distrito militar do país, e era comandado de Wiesbaden. Nesse momento da guerra, a Alemanha já se encontrava cercada pelos Aliados, com suas forças militares exauridas e poucas possibilidades de reação.
Poucos dias depois, em 15 de março, o campo de concentração de Gross-Rosen, localizado também na parte sudeste do país, foi libertado por tropas soviéticas.

 

O campo foi construído em 1940, com o objetivo de ser um campo-satélite ao de Sachsenhausen de Oranienburg. Em 1941, 3000 prisioneiros encontrados no front do Leste foram transferidos para o campo, para que fossem fuzilados e, no ano seguinte, os prisioneiros do local passaram a ter seu trabalho escravo orientado para suprir necessidades da indústria de guerra alemã. O campo teve o auge de sua atividade em 1944, quando haviam cerca de 100 sub-campos dentro do complexo prisional de Gross-Rosen, localizados ao leste da Alemanha, na Polônia e na Thecoslováquia. Em seus anos de funcionamento, a população total do campo equivalia a 11% dos prisioneiros em campos nazistas e cerca de 125 mil passaram pelo campo, sendo 40 mil deles exterminados no local.

“Povos cujas veias correm o mesmo sangue devem pertencer ao mesmo Estado.”
(Adolf Hitler, "Mein Kampf")

No dia 13 de março de 1938, a Alemanha anunciou oficialmente a anexação da Áustria e a sua conversão em uma província do Terceiro Reich. Esse processo ficou conhecido como Anschluss, palavra alemã que significa anexação ou conexão. O regime nazista pretendia colocar em prática a noção do espaço vital, que expressava a formação da Grande Alemanha e a busca por uma unidade nacional que representasse o sangue germânico. Assim, no dia 12 de março de 1938 Hitler ordenou as tropas que invadissem a Áustria, ação amplamente apoiada pela sociedade alemã, e tinha como plano a renúncia do então chanceler e a nomeação de um oficial nazista para o cargo. Hitler evitou, com isso, o plebiscito já marcado para o dia seguinte, que definiria por voto popular se a Áustria deveria ou não ser anexada a Alemanha. Com a imposição do Anschluss, foram realizadas prisões contra opositores e foi impulsionado o antissemitismo no território austríaco.

 

Logo após a declaração da união dos territórios, os judeus em Viena foram obrigados a limpar manifestações antinazistas das calçadas e deu-se início a um intenso processo de emigração judaica.
Na obra de Hitler, "Mein Kampf", um assunto central é o anseio da construção de uma nação germânica pela união dos povos do mesmo sangue. Hitler já afirmava que a Áustria havia falhado por ter se tornado um aglomerado de raças diferentes e que só havia uma forma do Estado ser organizado interiormente: conservando um território alemão politicamente unido e vencendo as forças das diferentes raças. Para isso, advogava por um Estado com base em uma língua oficial única e um sentimento nacional unificador, com o objetivo de tornar novamente a Áustria em uma terra dos arianos.


Após o processo de anexação, em 10 de abril de 1938, o regime nazista realizou um plebiscito para ratificar a anexação, controlado pelos próprios nazistas, no qual cidadãos austríacos com origens judaicas foram proibidos de votar. O resultado foi de "aprovação" por 99% da população votante.

"Dificilmente alguém imaginou que Hitler, em seu momento de triunfo sobre o a crise nos Sudetos, estava realmente furioso por ter sido manobrado em um acordo diplomático da questão"

(Ian Kershaw, “The Hitler Myth”)

O Pacto de Munique foi um tratado de 1939 cujo objetivo era a discussão do futuro do recém criado estado da Checoslováquia, que possuía nas regiões norte e oeste, conhecidas coletivamente como Sudetos, uma população de milhares de alemães étnicos. O acordo foi realizado entre Adolf Hitler da Alemanha, Edouard Daladier da França, Benito Mussolini da Itália e Arthur Chamberlain da Inglaterra - sem a presença de um representante da Checoslováquia. A “política de apaziguamento” das potências democráticas acabou por delimitar, no Pacto de Munique, a entrega dos Sudetos a Adolf Hitler, visando a integração dessas regiões, anteriormente perdidas no Tratado de Versalhes, ao Reich.

Após a anexação da Áustria, a reintegração dos Sudetos foi mais uma importante vitória diplomática para Hitler, que lhe garantiu enorme popularidade, representando o grande estadista que conseguiria devolver à Alemanha sua antiga glória sem o derramamento de sangue. No entanto, o historiador Ian Kershaw lembra que o Führer havia preparado o caminho diplomático apesar de ele próprio nunca ter tido a visão de uma grande Alemanha conquistada por meio da paz. Em 15 de março de 1939, Hitler desrespeita o acordo diplomático de Munique e o exército alemão marcha para o restante da Checoslováquia, tomando Praga e proclamando o Protetorado da Boêmia e Morávia, um estado governado pelos nazistas que permaneceu existindo até 1945.

A reintegração dos Sudetos e o rompimento do Pacto de Munique com a ocupação da Checoslováquia foram o prelúdio da Segunda Guerra Mundial. Na Alemanha, no entanto, nem mesmo os maiores entusiastas do movimento nazista concordavam com a marcha sobre Praga. Não deixa de ser relavante mencionar o papel fundamental das potências democráticas na pavimentação dessa caminho sombrio que terminaria com a destruição de boa parte da Europa na segunda guerra total.

“Embora a esmagadora maioria da população claramente desejasse 'sucesso nacional' - a restauração do poder e da glória da Alemanha na Europa -, era igualmente claro não querer aceitar a ideia de grandes sacrifícios para alcançá-los, muito menos - certamente para os mais velhos geração, que lembrou o sofrimento de 1914-18 - outra guerra”

(Ian Kershaw, "The Hitler Myth")

Em 16 de março de 1935 o governo nazista formulava o que seria a sua primeira infração ao Tratado de Versalhes: o processo de remilitarização da Alemanha com a restauração do serviço militar obrigatório. O Tratado, assinado em junho de 1919, após o fim da Primeira Guerra Mundial, tinha como um dos pontos centrais o desarmamento da Alemanha e a restrição do tamanho do seu exército. Porém, com a ascensão do regime nazista e da liderança de Adolf Hitler, o processo de remilitarização visava, principalmente, recuperar o território perdido pela Alemanha na Primeira Guerra, bem como conquistar novos espaços.

A Wehrmacht (Força de Defesa) englobava as forças armadas unificadas da Alemanha Nazista durante o Terceiro Reich: contava com o Exército, a Marinha, as Forças Aéreas e as tropas das Waffen-SS, setor armado da SS (Shutzstaffel), que apesar de não fazerem oficialmente parte do exército, eram constantemente utilizadas. A Wehrmacht substituiu o Reichswehr, exército criado após a derrota da Alemanha na Grande Guerra. Esse processo significou uma retomada e restauração da Alemanha após Versalhes, que Hitler e muitos alemães consideravam vergonhoso para a pátria, tornando a decisão do Führer extremamente popular.

O juramento militar, que tradicionalmente era feito a nação alemã, passou a ser, a partir de 1934, um juramente de lealdade pessoal a Hitler. Apesar do Führer manter uma falsa linha pacifista, de acordo com Ian Kershaw, a guerra não era um desvio e sim, parte fundamental da ideologia nazista. Por isso, os interesses expansionistas do Führer tiveram grandes contribuições da Wehrmacht, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial, atuando de forma significativa no Holocausto e na guerra contra os Aliados.

“Quando comecei a estudar os negacionaistas do Holocausto, as pessoas me encaravam estranhamente. Incrédulos, eles perguntavam: ‘Você leva esses caras a sério?’ [...] Lamentavelmente, não tenho mais que convencer os outros da relevância deste trabalho. [...] Mas, em vez de ficar encantada por não precisar mais convencer as pessoas de que esse é um tema legítimo de estudo, eu gostaria que ainda pudéssemos ter o luxo de pensar se deveríamos levar essas pessoas a sério”

(Deborah Lipstadt, “Denying the Holocaust”)

No dia de hoje comemoramos o aniversário da historiadora estadunidense Deborah E. Lipstadt. Nascida em Nova York, Lipstadt concluiu sua graduação em 1969 e seu doutorado em 1976. Ao longo de sua carreira, acumulou uma série de premiações pelos seus livros e pela sua atuação como professora e pesquisadora e em 1994 foi indicada por Bill Clinton para a chefia do conselho do Museu Memorial do Holocausto dos EUA, servindo por dois mandatos. Atualmente é professora de Judaísmo Moderno e Estudos sobre o Holocausto na Universidade Emory, em Atlanta.

Lipstadt é mais conhecida pela querela envolvendo o negacionista David Irving, em 1996, que rendeu um processo judicial e foi retratado no filme “Negação”, que já indicamos por aqui. Irving processou a historiadora e a editora Penguin em uma corte inglesa por difamação pelo que Lipstadt escreveu sobre ele em seu livro “Denying the Holocaust”. O que acabou sendo julgado nesse tribunal foi se o Holocausto havia acontecido e como era possível provar o extermínio. Deborah contou com historiadores experientes em sua defesa, como Richard Evans, Chistopher Browning e Peter Longerich. O julgamento terminou com a vitória da historiadora mas, sobretudo, com a conclusão da veracidade do Holocausto e da certeza de que a História, ainda que condicionada à narrativas, não pode aceitar a negação de eventos.
Além do livro “History on trial”, de 2005, que foi utilizado para o roteiro de “Negação”, outros livros importantes de Lipstadt são “The Eichmann Trial” (2011) e “Antisemitism: Here and now” (2019).

"Os campos de concentração podem ser classificados em três tipos correspondentes às três concepções ocidentais básicas de uma vida após a morte: o Limbo, o Purgatório e o Inferno. Ao Limbo correspondem aquelas formas relativamente benignas, que já foram populares mesmo em países não-totalitários, destinadas a afastar da sociedade todo tipo de elementos indesejáveis — os refugiados, os apátridas, os marginais e os desempregados [...] O Purgatório é representado pelos campos de trabalho da União Soviética, onde o abandono alia-se ao trabalho forçado e desordenado. O Inferno, no sentido mais literal, é representado por aquele tipo de campos que os nazistas aperfeiçoaram e onde toda a vida era organizada, completa e sistematicamente, de modo a causar o maior tormento possível"

(Hannah Arendt, "Origens do Totalitarismo")

Em 20 março de 1933, foi construído o primeiro campo de concentração do regime nazista. Localizado em Dachau, foi estabelecido em uma fábrica de munição abandonada e o seu objetivo inicial era receber prisioneiros políticos. Além de alemães comunistas, social-democratas e sindicalistas, o campo aprisionou testemunhas de Jeová, ciganos, homossexuais e judeus.
Em 1937, diversos prédios foram construídos no local utilizando a mão-de-obra escrava dos prisioneiros. A antiga fábrica foi destruída e o novo complexo, inaugurado em 1938, permaneceu praticamente inalterado até 1945.

 

O local tornou-se ambiente de treinamento para guardas de campo de concentração e, em 1942, uma área de crematório foi construída. Ela foi utilizada pelos guardas nazistas em treinamento para enforcar e atirar nos prisioneiros, para além de sua função original de extermínio. Como em outros campos, os prisioneiros foram submetidos a experiências médicas, sofreram com hipotermia e com exposição a câmaras de descompressão. O campo foi liberado em 26 de abril de 1945, com a chegada de forças militares estadunidenses. O total de prisioneiros era de 67.655, sendo 22.100 judeus. Durante sua existência, o local abrigou cerca de 188 mil prisioneiros, e pelo menos 28 mil morreram entre 1940 e 1945.

“Artigo 1: Além do procedimento prescrito pela Constituição, as leis do Reich também podem ser promulgadas pelo governo do Reich. [...]. Artigo 2: As leis promulgadas pelo governo do Reich podem divergir da Constituição”

(Trechos da Lei de Concessão de Plenos Poderes, 1933)

A ascensão do Partido Nacional-Socialista aconteceu de maneira meteórica e trouxe o fim de diversas instituições, partidos e grupos num espaço curtíssimo de tempo. Escolhido a dedo pelo establishment como chanceler da Alemanha, foi questão de tempo para que Hitler se tornasse a maior autoridade política da Alemanha. Desde janeiro de 1933, era perceptível a rápida destruição das instituições democráticas e republicanas. O Decreto de Emergência de 28 de fevereiro de 1933 abriu caminho para uma série de determinações legais que retirava direitos e definia quem era ou não merecedor de direitos civis na Alemanha.


A primeira legislação aprovada de um série de restrições legais foi o Ato de Práticas Maliciosas em 21 de março de 1933 que previa eliminação de “associais” e a vigilância mais ferrenha da população. Os “associais”, portanto, seriam aqueles que fugiriam do estereótipo do bom alemão e, posteriormente, muito alemães, identificados como arianos, foram presos em campos de concentração por serem considerados associais. Em 23 de março, qualquer esperança de retomada da autonomia do parlamento alemão foi solapada: A Lei de Concessão de Plenos Poderes a Hitler em 23 de março e a Lei para Remediar a Angústia do Povo Alemão e do Reich, no dia seguinte, concedia poderes legislativos ao governo e passava por cima da constituição.


A pluralidade partidária e a garantia dos direitos civis não foram só restringidas como destruídas nos primeiros meses do totalitarismo nazista. O domínio total pretende destruir a política institucionalizada como forma legítima de intervenção no mundo público assim como colocar em cheque a humanidade dos indivíduos. É na exclusão e na tentativa constante de dominação absoluta do outro que o totalitarismo nazista se pautou desde seus primeiros meses no poder.

“Você caía em certa categoria: você iria sentar e aproveitar os pequenos deleites de um campo prisional cercado de arame farpado até que fosse resgatado, se fosse resgatado. Ou você iria tentar escapar do lugar, e reingressar e derrubar algo sobre eles.”

(Richard Churchill, sobrevivente da fuga)

Stammlager Luft III (Campo Principal Ar III) era um dos campos da rede comandada pela Luftwaffe (força aérea alemã) para detenção dos prisioneiros de guerra das forças aéreas aliadas. O campo localizava-se nas redondezas de Sagan, hoje Zagan, Polônia. O local foi escolhido para dificultar fugas por conta do solo arenoso, que tornaria a escavação de túneis uma tarefa perigosa. Diferentemente de outros campos de concentração, Stalag Luft III era dirigido em acordo com as diretrizes da Convenção de Genebra para prisioneiros de guerra, e, por isso, os presos eram mais bem tratados e podiam receber parcelas extras de comida e outros suprimentos da Cruz Vermelha.

Na noite de 24 de março de 1944, 76 prisioneiros conseguiram escapar através de um túnel cavado a 8 metros abaixo da superfície e com 102 metros de comprimento. Os prisioneiros tinham uma extensa organização interna, incluindo um sistema de detecção de espiões e um registro de todos os movimentos dos guardas. O oficial britânico Roger Bushell formou um Comitê de Fuga para realizar seu plano: a construção de três túneis para a fuga simultânea de mais de 200 presos. No entanto, apenas um dos túneis foi finalizado. A maioria dos prisioneiros não teria condições de evadir captura, mas parte do plano era desviar recursos alemães para a busca. Devido a um erro de cálculo, a saída do túnel ficou a alguns metros de distância da floresta e perto de uma torre de vigia, o que atrasou a fuga. Apenas 3 homens conseguiram chegar ao território aliado e, dos 73 recapturados, 50 foram fuzilados pela Gestapo por ordens de Hitler, que ficou furioso ao receber notícias da fuga.

A história da fuga de Stalag Luft III foi contada no filme estadunidense "Fugindo do Inferno" (The Great Escape), de 1963, baseado no livro homônimo de Paul Brickhill.

"Isso parecia dar credibilidade a um tema incessantemente ensaiado durante a campanha: que a Alemanha era um 'estado völkish do Führer' e que o Führer não era um ditador, mas sim um 'executor da vontade do povo'. A aprovação que o povo deu à ordem criada pelo Führer [...] não se pautava pelo contraste entre o governador e os governados, um compromisso entre autoridade e povo, mas sim pela 'expressão de um seguidor confiante e crédulo'. O 'mito de Hitler' havia se tornado a base do sistema governamental germânico"

(Ian Kershaw, "The Hitler Myth")

Em 29 de março de 1936, registrou-se, na Alemanha, a suposta aprovação percentual de 99% dos alemães em relação à política implementada por Adolf Hitler, ou seja, o Partido Nazista havia atingido a marca de 99% dos votos do eleitorado. As eleições de 1936 foram, de fato, precedidas por ações que a população aprovou com fervor, sobretudo em âmbito de política internacional. Como aponta o historiador Ian Kershaw, a remilitarização da Renânia naquele ano foi ovacionada, pois rompia com uma decisão do Tratado de Versalhes, acordo firmado no fim da Primeira Guerra Mundial e que era entendido como grande fonte de humilhação para o país, pois impunha diversas restrições à ação política alemã no cenário mundial. A dissolução do Parlamento e a convocação de novas eleições em março de 1936 também foi algo bem recebido pelo povo, já que as últimas eleições parlamentares haviam ocorrido em 1933, mesmo ano da nomeação de Hitler como chanceler alemão.

A campanha em 1936 foi muito fervorosa: a propaganda concentrava-se na imagem de Hitler, enaltecendo uma Alemanha unida e ressaltando a futilidade de qualquer oposição. A eleição foi um sucesso, mas mais em razão da manipulação de votos e da fabricação de cédulas do que do apoio efetivo do povo, que não podia mais votar livremente. A cidade de Colônia, por exemplo, obteve um total de 103% de votos favoráveis ao NSDAP. Tal manipulação confirmava um suposto apoio popular que a ideologia nazista pregava, corroborando para a propaganda de sucesso do Führer e do Terceiro Reich.

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