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Indicação de filmes

Abril de 2020

“São culpados moralmente os seres capazes de expiação, aqueles que sabiam ou que podiam saber, e que apesar disso tomaram caminhos que sabiam errados, quando fazem um exame de consciência. Por comodidade, dissimularam a si mesmos o que se passava; ou se deixaram aturdir e seduzir; ou se deixaram comprar com vantagens pessoais; ou então obedeceram por medo”

(Karl Jaspers, "A questão da culpa")

Indicado a 5 premiações do Oscar em 2009, a adaptação do livro de Bernhard Schlink “O Leitor” é nossa recomendação da semana.
Na Alemanha do Pós-Guerra de 1958, o jovem Michael Berg (David Kross e Ralph Fiennes) subitamente adoece em razão da febre escarlatina. É uma mulher desconhecida que o socorre enquanto ele tem um mal-estar nas ruas de Neustadt. Despretensiosamente, inicia-se assim a ligação entre Hanna Schmitz (Kate Winslet) e Michael. O que começou com uma enfermidade, caminha a passos rápidos rumo a um amor tórrido, ainda que o protagonista tenha apenas 15 anos e Hanna tenha 30.

Ao passar dias a fio na modesta casa de sua amante, Michael, entre uma e outra aventura sexual, lê diversas obras literárias para a mulher. Esse hábito consolida a relação entre eles, e suas visitas a Hanna passam a compor papel central na vida do adolescente. Entretanto, tão subitamente quanto surgiu, ela desapareceu, sem deixar a ele nenhum sinal. O filme evoca importantes questões sobre o que propõe Karl Jaspers em seu livro “A questão da culpa: A Alemanha e o Nazismo” sobre a culpa e responsabilidade dos perpetradores do Holocausto. Ainda, nos faz refletir sobre a monstruosidade, sempre tão caricata em Hollywood (todos se lembram dos nazistas avultados de A Lista de Schindler), em contraste aos nazistas da vida real. Eram todos monstros? Não seriam compostos, em sua grande maioria, por pessoas banais, como eu, você nossos amigos? E isso faz deles menos culpados e responsáveis em alguma medida?

A produção de Stephen Daldry apresenta uma história absolutamente envolvente e que coloca em xeque a própria natureza humana, o perdão e as feridas, jamais cicatrizadas, de um dos maiores massacres do séc XX. Não percam!

“Ninguém vai crer se não puder ver”

(Francesc Boix)

Baseado no livro “El fotógrafo del horror, La historia de Francesc Boix y las fotos robadas a los SS de Mauthausen”, do historiador Benito Bermeja; o filme "O Fotógrafo de Mauthausen" nos acompanha pelo campo de Mauthausen, através da jornada de Francesc Boix (Mario Casas). Combatente do Exército Republicano durante a Guerra Civil Espanhola, Francesc teve sua nacionalidade negada e, juntamente a milhares de compatriotas, foi abandonado ao jugo dos nazistas na Áustria. Boix tinha experiência com fotografia, o que foi suficiente para que recebesse o cargo de fotógrafo do campo.

Ao exercer sua função, Francesc presenciou espetáculos sádicos de tortura, massacre de inocentes e falsificações de cenas de assassinato de prisioneiros do campo. Contudo, foi apenas quando os oficiais nazistas ordenaram a destruição das fotos que registravam os horrores contidos em Mauthausen que ele se mobilizou, juntamente a antigos colegas do Partido Comunista, na tentativa de esconder alguns negativos das imagens que poderiam incriminar os nazistas ao fim da guerra.

Dirigido por Mar Targarona, o filme, baseado em acontecimentos históricos, embora dramatizado, nos mostra uma nova perspectiva de um campo nazista destinado ao trabalho forçado de intelectuais e membros da elite cultural de países ocupados. Cerca de 100 mil pessoas morreram em Mauthausen e, graças a Boix e amigos resistentes, há provas disso. Além disso, Francesc esteve presente como testemunha da acusação nos Julgamentos de Nuremberg, em 1946, nos quais ajudou a identificar os nazistas atuantes no campo, além de relatar o extermínio de prisioneiros de guerra soviéticos. Não deixem de conhecer a história do “homem que ajudou a provar o Holocausto”! Tem na Netflix! 😉

“Talvez esta entrevista tenha sido meu último papel”

(Lída Baarová)

Nossa indicação da semana é Lída Baarová, filme biográfico de 2016 que narra a história da atriz tcheca de mesmo nome, um grande expoente cinematográfico na década de 30. Ainda jovem, Lída protagonizou sucessos de bilheteria como “Barcarole”, ao lado de Gustav Fröhlich (no filme, Gedeon Burkhard), e conquistou seu lugar como estrela dos filmes alemães. Interpretada por Tatiana Pauhofová, a vida da atriz é exposta na representação de um dos capítulos pouco revisitados da trajetória nazista.

Embora sua participação nas telas dos cinemas tenha sido significante, Lída foi perpetuada enquanto amante de um dos arquitetos no regime nacional-socialista: Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista entre 1933 e 1945, encenado por Karl Markovics. O tórrido relacionamento extraconjugal, não raro para Goebbels, foi o começo do fim derradeiro na carreira de Baarová. Ela, que inúmeras vezes fora convidada para contracenar em produções Hollywoodianas, optou pelos jogos de poder que brincava com o Ministro, e manteve-se completamente indiferente aos crimes cometidos por seu amante.

Dirigido por Filip Renc, a produção independente carrega algumas representações controversas e criticáveis dos nazistas e da organização de seu regime. Embora muitas vezes dramatizado de forma quase caricatural, a obra é relevante por trazer à tona a vida tão pouco contada da atriz tcheca que, por consequência de suas escolhas, morreu no anonimato. O enredo desenvolve-se no formato de uma entrevista feita a Lída, já idosa, vivida por Zdenka Procházková, e que dá a impressão de não reconsiderar as decisões que a levaram a amar um genocida.

Nesse sentido, ainda que não tenha sido realizado de forma exímia, o filme nos permite refletir sobre o papel de Lída enquanto colaboradora ativa do regime nazista, em detrimento de suas tentativas de manter-se alheia aos crimes perpetrados pelo governo que a financiava; e que o amor (especialmente aquele alimentado pela sede de poder) não justifica ou ameniza em nada as decisões de sua decadente vida.

"- Tem a chance de fazer história e está dando as costas a isso?
- As pessoas me veem como exemplo.
- Eu não ligo a mínima para isso.
- Você é branco, Larry. Não precisa ligar"

(Jesse Owens)

Em 1936, Berlim sediou os Jogos da XI Olimpíada. No auge de seu governo, Hitler e seus aliados esperavam que isso poderia funcionar como uma ferramenta de propaganda tanto da estética nazista, como um demonstrativo da superioridade da raça ariana. O gigantesco Estádio Olímpico de Berlim foi construído para os Jogos, e a cineasta Leni Riefenstahl foi convidada a registrar o evento, o que gerou o famoso “Olympia”, filme de propaganda do regime e que lançou tendências cinematográficas para a posteridade. Além disso, uma série de medidas foi tomada para preservar a imagem alemã: cartazes antissemitas foram removidos, periódicos de mesmo caráter saíram de circulação, e as Estrelas de Davi usadas para identificar os judeus foram ocultadas. Toda uma manipulação da realidade foi executada para promover a imagem desejada do Terceiro Reich.
Entretanto, uma das situações mais marcantes da Olimpíada nazista caminhou em direção contrária aos interesses do Führer. James Cleveland Owens, conhecido como Jesse Owens, diante de uma Alemanha nazificada, conquistou quatro medalhas de ouro, o primeiro atleta a receber tantas medalhas em uma só Olimpíada. Enquanto homem negro, Owens garantiu à História a chance de desbancar a ideia de superioridade racial nazista e melhor ainda, na frente deles. Nossa indicação desta semana, o filme Raça, dramatiza sua participação célebre nos jogos de 36.

Dirigido por Stephen Hopkins, a produção de 2016 acompanha o percurso durante os 3 anos de preparação do atleta, interpretado por Sthepan James, e sua trajetória profundamente marcada pelo racismo. O filme é bem-sucedido ao demonstrar claramente o teto de vidro dos norte-americanos ao repudiar a política segregatória nazista ao passo que marginalizava a parcela não-branca de sua população. Não perca a chance de conhecer a história fenomenal de Owens, evidenciada pela excelência enquanto atleta e complexificada em razão da discriminação social. 

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