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Indicação de filmes

Fevereiro de 2020

É com muito prazer que viemos divulgar uma nova iniciativa do NEPAT nas redes sociais! Semanalmente, próximo aos finais de semana (pra ninguém ter desculpa de não assistir!), faremos indicações de filmes, documentários e séries que se relacionem aos temas centrais estudados pelo núcleo: nazismo, autoritarismo e totalitarismo, século XX e afins. Esperamos que gostem! Sugestões de produções para indicarmos nas próximas semanas são muito bem-vindas 🖤

"- Parecia como um mundo completamente estranho? Quero dizer, como um outro mundo?
- Aquilo não era um mundo. Não havia humanidade"

(Jan Karski, professor universitário e antigo entregador do governo polonês no exílio)

Nesta semana, nossa indicação é o clássico documentário Shoah. Dirigido por Claude Lanzmann, a obra cinematográfica de 1985 tem cerca de nove horas e meia de duração. Lanzmann orienta a produção a partir de entrevistas com sobreviventes, testemunhas e até mesmo perpetradores dos horrores do holocausto. O diretor opta por não utilizar nenhuma filmagem do período da guerra, em uma estratégia bem-sucedida de carregar toda a tragédia e os terrores da experiência totalitária nazista a partir da narrativa de seus entrevistados. Embora a abordagem do diretor seja controversa e alvo de vastas críticas, consideramos este um documentário importante na percepção, a partir da memória e da oralidade, de um dos momentos mais traumáticos do século XX. Devido a longa duração, é comum dividir o filme em quatro partes: a primeira, com 2 horas e 27 minutos; a parte 2, com 1 hora e 54 minutos; a terceira parte, com 2 horas e 20 minutos e finalmente a quarta parte, com a mesma duração. Um bom filme a todas!

"Você não é um nazista, Jojo. Você é um menino de dez anos de idade que gosta deusar um uniforme engraçado e quer fazer parte de um clube"

(Elsa Korr)

A indicação desta semana é Jojo Rabbit, comédia vencedora do Oscar em 2020na categoria de Melhor Roteiro Adaptado e que tem acumulado uma série de prêmiosdesde seu lançamento em fevereiro deste ano. O filme, dirigido por Taika Waititi, é uma adaptação do romance “Caging Skies”, de Christine Leunens.
A trama acompanha o jovem Johannes Betzler (Roman Griffin Davis), Jojo, quevive na Alemanha nazista e tem por amigo imaginário o próprio Hitler (curiosamenteinterpretado por Taika). Ao ter que se afastar dos afazeres militares da Juventude Hitlerista e passar mais tempo em casa, Jojo descobre que sua mãe, Rosie (ScarlettJohansson), ajuda a esconder a judia Elsa (Thomasin McKenzie) no quarto de suafalecida irmã. A descoberta coloca em cheque toda a sua visão de mundo e as certezasque tinha até então sobre os judeus, os nazistas e seu grande ídolo, Hitler.

Ao tratar sobo viés do humor escrachado e da sátira caricata um tema tão sensível, Waititi expõe osabsurdos da sociedade nazista e nos faz questionar sobre o papel da ideologia e da doutrinação, elementos imprescindíveis na construção totalitária, ao mostrar como o Jojo, de apenas dez anos, é absolutamente fascinado pelo regime e seu líder, a pontode ser ele o seu refúgio em diversos momentos da narrativa. O tom alegre da comédiatorna-se menos adocicado à medida que o protagonista começa a perceber astragédias e injustiças do mundo em guerra ao seu redor, e as visitas do Hitler do faz-de-conta são menos frequentes e bem-humoradas.

Ao fim, desponta um incômodo questionamento: será possível rir do nazismo? Embora não tenhamos a resposta, aforma elucidada elaborada por Waititi, que não tem por fim o humor em si, mas sim areflexão crítica acerca do assunto, nos faz crer em uma conclusão afirmativa para apergunta. 

“Quem quer que tenha estado nestas trincheiras tanto tempo quanto a nossa infantaria, e quem quer que não tenha perdido o juízo nestes ataques infernais, deve pelo menos ter ficado insensível a muitas coisas. Quantidade demasiada de horror, quantidade excessiva do incrível foi arremessada contra nossos pobres camaradas. Para mim é inacreditável que isso possa ser tolerado”

(Hugo Steinthal, em “A Sagração da Primavera”, de Modris Eksteins)

Vencedor de três Oscars e de um Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático, esta semana indicamos o longa metragem 1917, dirigido por Sam Mendes.
Ambientado nas trincheiras típicas da Primeira Guerra Mundial, Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), soldados britânicos, recebem a missão de enviar uma mensagem ao batalhão de Devon, a qual preveniria a investida de mais de mil soldados em uma armadilha que os levaria à morte. Contudo, para chegar até lá, seria necessário atravessar o campo inimigo e as “terras de ninguém”. Ao longo desta perigosa jornada, são escancarados os efeitos devastadores de uma Guerra Total, conceito moderno cunhado para explicar um conflito onde mobiliza-se todos os esforços humanos (militares e civis), econômicos, tecnológicos e afins em prol da guerra. Não são raros os cadáveres encontrados pela dupla, bem como casas abandonadas e uma pequena família escondida em escombros.


A produção conta um embasamento histórico acurado, a exemplo da “armadilha” que motiva a mensagem a ser entregue: trata-se da Operação Alberich, de iniciativa da Alemanha, ocorrida entre 09/02 e 20/03 de 1917. Todavia, a ideia de soldados mensageiros foi baseada na história do avô do diretor, Alfred Mendes, que lutou pelo exército britânico e contava ao neto sobre suas desventuras ao entregar mensagens entre trincheiras. Além disso, o filme utiliza da filmagem em plano-sequência, o que faz parecer que tudo faz parte de um único take.

“Como nós sabemos que o Holocausto aconteceu? Como provamos? Evidência fotográfica? Nenhuma pessoa nesta sala ou fora dela já viu a imagem de um judeu dentro de uma câmara de gás. Vocês sabem por quê? Porque os alemães garantiram que nenhuma jamais fosse tirada. Então o que nós sabemos? Como nós sabemos que tantos foram assassinados? Qual é a prova? Onde está a prova? Quão forte ela é?”

(Deborah Lipstadt )

O descrédito e a negação por narrativas históricas e científicas há muito consolidadas infelizmente é cada vez mais recorrente, dentro e fora dos circuitos acadêmicos. O nazismo, assim como a esfericidade da Terra, a eficácia das vacinas e as cicatrizes da escravidão, não passa impune a manipulações e distorções. Há quem diga que ele é de esquerda, há quem diga que sequer ocorreu. É o caso do britânico David Irving, que na década de 90 processou a historiadora estadunidense Deborah Lipstadt por ser mencionado na obra “Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória”. Brevemente, ela o acusa de interpretar de forma equivocada a documentação que o levou à base central de sua tese: de que as câmaras de gás jamais mataram sequer um judeu. Coube ao tribunal, então, julgar muito mais que um caso de difamação: estava em prova a própria existência do Holocausto. A história real deste julgamento inspirou o roteiro de “Negação”, drama de 2016 dirigido por Mick Jackson, nossa indicação de filme da semana.


O julgamento, que só teve sentença final em 2001, inflamou ainda mais a constatação de como a História, em seu fazer, está vulnerável a manipulações retóricas e deturpações documentais. A violência simbólica que é viver às sombras de uma história parcialmente ou nada verdadeira não diz respeito apenas ao historiador: influi profundamente na conformação de cada indivíduo como cidadão e é um excelente indicativo social. Em tempos perigosos de “assassinos da memória”, como sugere Pierre Vidal-Naquet, esperamos que “Negação” inspire boas reflexões. Qualquer semelhança com o Brasil de Bolsonaro não é mera coincidência. Bom filme!

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