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Indicação de filmes

Março de 2020

“O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais.”

(Hannah Arendt)

Nesta semana, nossa indicação é “Hannah Arendt - Ideias Que Chocaram o Mundo”. Dirigido por Margarethe von Trotta, o filme de 2012 acompanha o percurso da filósofa e teórica política Hannah Arendt (Barbara Sukowa) durante a cobertura do processo movido em Jerusalém contra o nazista Adolf Eichmann, que durante o Terceiro Reich era encarregado da logística que transportava milhares de judeus todos os dias aos campos de concentração.

Em 1961, a pensadora trabalhou como correspondente da revista The New Yorker e viajou a Israel para assistir presencialmente um dos julgamentos mais relevantes desde Nuremberg. As expectativas eram muitas, mas as inquietações de Arendt tomaram um rumo distinto do que se discutia até então entre intelectuais e a grande mídia: ao se deparar com um Eichmann enjaulado, esperava encontrar algo mais próximo de um monstro do que de um homem terrivelmente comum e que em nada se destacaria em uma multidão, que foi o que viu. Surge, assim, o que a filósofa chamou de Banalidade do Mal, teoria construída em busca da compreensão de como a inversão da moral e a ausência de pensamento e julgamento críticos podem fazer com que o mais medíocre dos indivíduos cometa um crime das proporções dos de Eichmann, sem jamais se considerar culpado.

Trotta, ao construir a narrativa de forma a demonstrar todas as dificuldades e críticas enfrentadas por Hannah Arendt na época, entrega um retrato biográfico muito relevante para a percepção do pensamento intelectual e uma excelente introdução ao pensamento arendtiano, que, à sua — brilhante — maneira, chocaram e chocam o mundo.

Caso o filme desperte mais interesse, não deixe de ler “Eichmann em Jerusalém, um relato sobre a Banalidade do Mal”, que contém o ensaio de Arendt para a The New Yorker. Desejamos a todas e todos um excelente filme e boas reflexões!

"Em termos morais, minhas ações me tornam culpado. Me apresento perante as vítimas com remordimento e humildade. Sobre minha responsabilidade a nível legal, vocês devem decidir"

(Oscar Gröning)

A indicação de hoje é o documentário “O Contador de Auschwitz”. Dirigido por Matthew Schoychet, a produção acompanha o julgamento de Oscar Gröning, ex membro da SS, em Lünemburg no ano de 2015, sete décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial. O homem, já em idade avançada, foi julgado como cúmplice no assassinato de 300 mil prisioneiros em Auschwitz, mas alega jamais ter encostado em uma arma. Gröning era responsável por receber e encaminhar os pertences (dinheiro, roupas, jóias e tudo que fosse de valor) daqueles que chegavam no campo de extermínio, recebendo pela mídia o apelido “contador de Auschwitz”. O julgamento tardio do Contador só foi possível em vista do precedente aberto em 2011, quando John Demjanjuk, guarda do campo de Sobibor, foi condenado a cinco anos como cúmplice das mortes ocorridas onde trabalhava. Houve, então, uma determinação legal que concluía o que cientistas políticos e filósofos já debatiam intensamente: era preciso considerar cúmplices dos crimes nazistas aqueles que, mesmo sem terem participado diretamente do extermínio, operaram como colaboradores de alguma forma. O debate sobre culpa e responsabilidade, fomentado, por exemplo, por Karl Jaspers e Hannah Arendt, foram reavivados no século seguinte, para justificar uma nova temporada de “caça” aos nazistas remanescentes.

Qual a pertinência de condenar homens e mulheres em seus mais de 90 anos? Qual a mensagem ainda muito necessária a ser transmitida sobre este crime contra a humanidade que não se consolidou com o julgamento dos nazistas de grande escalão, como em Nuremberg? Como as categorias de culpa e responsabilidade iluminam nossa compreensão acerca da participação em regimes autoritários e totalitários? Esperamos que o documentário inspire boas reflexões e estimule o interesse em encontrar respostas a essas questões. Bom filme!

“Nunca vou viver em paz com o meu pai. Porque não posso, jamais, perdoar o que ele fez. Todas estas imagens estão vivas em minha mente. São crimes horríveis. Não posso viver em paz com a lembrança do meu pai. Não quero. Porque encontrar a paz é encontrar uma maneira de perdoá-lo. E não posso perdoá-lo”.

(Niklas Frank)

Hans Frank foi Governador Geral da Polônia durante a ocupação nazista e ficou conhecido como “o açougueiro da Polônia”. Na região que estava sob seu comando, operavam os campos de Sobibor e Treblinka e estima-se que 2,77 milhões de poloneses e 2,9 milhões de judeus morreram em seus domínios. Em 16 de outubro de 1946 foi enforcado por crimes contra a humanidade.

Otto von Wächter foi governador do distrito da Cracóvia e posteriormente do distrito da Galícia na ocupação nazista. Cerca de cem mil pessoas foram assassinadas sob seu governo. Nunca foi julgado e morreu de causas naturais em 1949.
Na indicação desta semana, o documentário “What Our Fathers Did - A Nazi Legacy” acompanha a história de três homens: Philippe Sands, advogado cuja família foi assassinada durante o Holocausto; Niklas Frank e Horst von Wätcher, filhos de Hans Frank e Otto von Wätcher, respectivamente.

O diretor David Evans nos apresenta o questionamento: “Imagine como deve ser crescer sendo filho de um assassino em massa?”. As ramificações dessa vivência, focadas no reconhecimento de seus respectivos pais enquanto genocidas, gera debates profundos e discordâncias incômodas. O filho do Açougueiro da Polônia jamais perdoou seu progenitor. Já o filho do homem que massacrou a Cracóvia guarda tenras memórias do pai. Surge em quem assiste um desconforto: como é possível que Wätcher consiga discernir o caráter de Horst da sua participação em um dos maiores assassinatos em massa da História? A dificuldade de encontrar os carrascos entre aqueles que amamos tornam-se feridas expostas que colocam em xeque a própria natureza humana ao longo do documentário.

Convidamos todos para essa jornada que confronta as crenças sobre culpa e responsabilidade e, incrivelmente, o amor paterno. Bom filme!

“As pessoas recusavam-se a acreditar nos fatos gritantes diante dos seus olhos. Não que fossem obtusas ou tivessem má vontade. Apenas, nada do que tinham visto antes as havia preparado para acreditar. Por tudo o que conheciam e acreditavam, o assassinato em massa para o qual ainda nem tinham nome era pura e simplesmente inimaginável. Em 1988, é de novo inimaginável. Mas em 1988 sabemos o que não sabíamos em 1941: ​que também o inimaginável deve ser imaginado”

(Zygmunt Bauman, "Modernidade e Holocausto")

Imagine-se andando por Berlim, quando em um terreno baldio você dá de cara com ninguém menos que Adolf Hitler. E não em uma Berlim dos anos 40, mas em uma sob a globalização e dinamicidade do século XXI. Pois justamente essa é a premissa do filme “Ele Está de Volta” (Er ist wieder da), adaptação cinematográfica do livro homônimo de Timur Wermes, publicado em 2012 na Alemanha; e nossa indicação da semana. O filme, dirigido pelo alemão David Wnendt, mistura ficção e documentário buscando refletir como as sociedades, as instituições e, sobretudo, os indivíduos de nosso século recepcionariam a figura central do regime nazista.

Como o vencedor de Oscar “Jojo Rabbit” (2019), a obra de Wnendt contém um humor sátiro e escrachado, com um adicional intrigante: pelo seu caráter documental, há cenas de Hitler (Oliver Masucci) interagindo com pessoas anônimas e não contratadas, que ao contrário do que se pode pensar, têm reações bem diferentes à repulsa ou ao receio de falar (ou até rir?) com o personagem. O humor caminha a passos sombrios para um final aterrador, que faz valer toda a trama.
A produção expõe as inegáveis brechas existentes em nossa contemporaneidade para que possamos compreender, à luz do que sugere Bauman, que a ideologia nazista e as correntes subterrâneas de movimentos totalitários estão longe de serem esquecidos e que urge a necessidade de “imaginarmos o inimaginável”. Essa batalha, há muito dada por vencida, talvez ainda tenha o potencial de ruir as democracias como conhecemos hoje.
Esperamos que o filme traga boas reflexões!

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