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Indicação de literatura

Maio de 2020

“(...) naquele tempo não tinha lido uma só linha de Sanchez Mazas, e seu nome não era para mim mais que o nome brumoso de mais um dos muitos políticos e escritores falangistas que nos últimos anos da história da Espanha tinham sido enterrados aceleradamente, como se seus enterradores temessem que não estivessem de todo mortos.”

(Javier Cercas, Soldados de Salamina, p. 21)

“Soldados de Salamina” é o livro que alçou o romancista espanhol Javier Cercas a fama e deslanchou sua carreira como escritor. Misto de investigação histórica, crônica autobiográfica e romance, o livro trata de um curioso evento que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola.

Enquanto ainda trabalha como jornalista, Javier Cercas, personagem homônimo do autor, é convidado a entrevistar Rafael Ferlosio, filho do infame Rafael Sanchez Mazas - o fundador da Falange Espanhola, partido de orientação fascista que assumiu o poder durante a ditadura franquista. O filho conta como o pai escapou por um triz de ser fuzilado por soldados republicanos durante a guerra. Mazas conseguiu fugir do Santuário de Santa Maria del Collel, onde estava aprisionado, mas foi encontrado em uma busca por um soldado republicano. No entanto, o jovem decidiu não denunciar sua presença e o deixou escapar. O falangista então foi acolhido por três desertores do exército republicano, e foi só graças a essas intervenções que ele sobreviveu à guerra. Ao ouvir a história, Cercas fica obcecado em descobrir a identidade do “soldado do Collel” e dos “amigos do bosque” que salvaram a vida de Mazas. Ele decide que precisa escrever, não um romance, mas sim a “história verdadeira” do caso.

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a subsequente ditadura de Francisco Franco (1939-1975) foram períodos de grande trauma para a história espanhola. Contudo, após o processo de redemocratização, a dinâmica em relação a esse passado doloroso foi de “anistia”, ou seja, reconciliação e esquecimento. Assim, “Soldados de Salamina” é um dos livros de autores espanhóis que buscam confrontar a memória desse passado ainda largamente silenciado.

“Tentara descobrir então o que mais temia: ter que falar diante de tanta gente? A responsabilidade de encontrar a tradução correta? Não entender as testemunhas? Ou, ao contrário, entendê-las?”

(Annette Hess, “A Intérprete“, p. 89)

"A Intérprete" narra a história de Eva Bruhns. Para Eva, a guerra é nada mais que uma memória vaga de infância, um capítulo sombrio, mas já encerrado da história alemã. Por isso, quando é anunciado o julgamento de oficiais de Auschwitz, ela sente apenas um interesse passageiro. Inesperadamente, Eva é contratada para traduzir os testemunhos dos sobreviventes poloneses e se choca ao descobrir a verdade sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas. Enfrentando a resistência da família e do noivo, Eva deve decidir se quer continuar no processo. Sua determinação de buscar justiça para as vítimas significa que ela terá que enfrentar o passado sombrio da própria família.

Apesar de Eva ser uma personagem ficcional, o julgamento de Frankfurt de 1963 é um marco da história alemã. Foi um processo contra vinte e quatro membros da SS que trabalharam no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Também conhecido como o segundo julgamento de Auschwitz, o processo foi fundamental para expor os crimes dos nazistas e dar voz às vítimas do Holocausto através dos numerosos depoimentos de sobreviventes. Entretanto, devido a limitações da lei alemã, os réus que não mataram prisioneiros por “iniciativa própria” - ou seja, em atos de sadismo e brutalidade - não foram condenados por assassinato, recebendo penas leves. Isso significa que esses homens, que alegaram estar apenas cumprindo ordens, não foram responsabilizados por sua participação no extermínio sistemático dos judeus.

O livro de Hess traz reflexões sobre justiça, responsabilidade, as consequências da passividade em um regime assassino e a importância dos testemunhos. Ela também coloca uma questão relevante no contexto atual: os ressentimentos e ódios que alimentaram o regime nazista desapareceram junto com ele?

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