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Indicação de literatura

Fevereiro de 2020

Vamos começar hoje mais uma iniciativa do NEPAT nas redes sociais! Toda 1ª segunda do mês nós vamos indicar um livro de literatura relacionado às temáticas que estudamos aqui no grupo. Esperamos que gostem 🖤

“Lembra-se da casa dos LeBlanc, a casa dele! Alta e estreita com a escadaria no centro, espiralando como uma concha, onde o fantasma do irmão ocasionalmente esgueirava-se entre as paredes, onde madame Manec viveu e morreu, onde há não muito tempo ele podia se sentar em um sofá com Marie-Laure e fingir que os dois viajavam sobre os vulcões do Havaí, sobre as florestas nubladas do Peru, onde há apenas uma semana ela estava sentada de pernas cruzadas no chão lendo para ele sobre a coleta de pérolas no Ceilão, capitão Nemo e Aronnax em trajes de mergulho, o impulsivo canadense Ned Land prestes a arremessar o arpão em um tubarão.. Tudo isso está se incendiando. Todas as lembranças que ele já teve.”

(DOERR, Toda a luz que não podemos ver, p. 444)

O livro inaugural nas nossas indicações é "Toda a luz que não podemos ver", do autor estado-unidense Anthony Doerr, um romance de ficção histórica focado nas vidas dos personagens, nos dolorosos momentos de generosidade e compaixão em meio às atrocidades da Segunda Guerra Mundial.
Marie-Laure, uma jovem francesa que perdeu a visão aos seis anos de idade, vive em Paris com o pai, que trabalha no Museu de História Natural. Werner, um órfão alemão que vive com a irmã em uma região mineradora, é fascinado pelas transmissões de um pequeno rádio que encontrou no lixo. Quando os nazistas ocupam Paris, Marie foge com seu pai, que carrega consigo um dos tesouros mais valiosos do Museu. Werner se torna um técnico de rádio do exército alemão e é enviado em uma missão para descobrir de onde vêm as transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Conectados por uma transmissão clandestina muito antes de se conhecerem, os caminhos de Marie e Werner enfim se cruzam na cidade litorânea de Saint-Malo, nos momentos finais do trágico desfecho da guerra.

Março de 2020

“Nem uma única vez os dois voltaram a falar de saudade ou dos próprios sentimentos. Estavam juntos, sozinhos até, mas bem que poderiam estar de pé junto à cerca dos visitantes - Henry de um lado e Keiko do outro -, separados pelo arame farpado.”

(Jamie Ford, "Um Hotel na Esquina do Tempo", p. 262)

A indicação literária do mês é "Um hotel na esquina do tempo", romance de estreia do escritor estadunidense Jamie Ford.


Henry é filho de chineses que emigraram para os Estados Unidos e o único estudante asiático da escola Rainier, onde ele trabalha em troca de uma bolsa de estudos. Nos anos da Segunda Guerra Mundial, as tensões raciais estavam acirradas entre a comunidade chinesa e japonesa, num contexto já carregado de preconceitos contra imigrantes. Ainda assim, Henry se aproxima da nova bolsista, Keiko Okabe, uma jovem nipo-americana. No entanto, a amizade - e o primeiro amor - que florescia entre os dois é bruscamente interrompido quando o governo estadunidense começa a prender os imigrantes japoneses e Keiko é enviada para um campo de concentração.


Mais de quarenta anos depois, Henry vive uma vida pacata até o momento em que uma descoberta surpreendente muda tudo. Do porão do Hotel Panamá - o marco arquitetônico da divisa do velho bairro japonês de Seattle - surgem os pertences abandonados às pressas pela comunidade japonesa. Ao ver uma sombrinha vermelha - a sombrinha de Keiko - Henry se torna determinado a buscar por vestígios da família Okabe e a desenterrar as dolorosas memórias dos anos da guerra. O romance inaugural de Jamie Ford ilumina os impactos da guerra além dos campos de batalha e narra uma bela história de amor sobre promessas quebradas e esperança.

Abril de 2020

“Não foi nada mais do que aconteceu com milhares de nós. Quem não perdeu alguém ou alguma coisa? Posso andar por qualquer rua de Londres, esticar um braço e tocar em uma mulher ou um homem que perdeu um amante, um filho, um amigo. Mas eu… não consigo superar, Mickey. Não consigo superar.”

(Sarah Waters, "Ronda Noturna", p. 106)

Ronda Noturna, nossa segunda indicação desse mês, é uma das melhores obras da grande romancista inglesa Sarah Waters. Mais conhecida por seus romances históricos sobre a era vitoriana, a autora se volta nesse livro para os anos da Segunda Guerra Mundial.

Durante a guerra, Londres foi um alvo para os ataques aéreos dos alemães. A capital inglesa foi intensamente bombardeada durante a Blitz, de 1940 a 1941, e também pelos ataques V-1 e V-2, que aconteceram até o final da guerra, de 1944 a 1945. Durante esse período, a vida civil em Londres foi marcada pelo medo e ansiedade constantes, além do contato direto com a violência da guerra. Os bombardeios romperam com a normalidade, e instauraram um novo cotidiano, autorizando comportamentos que antes não seriam permitidos. Ao mesmo tempo, o medo constante da morte tornava os sentimentos - negativos e positivos - mais vívidos e intensos. É nesse cenário de uma cidade destruída e aterrorizada, em que as paixões podem correr livremente, que Sarah Waters ambienta o romance.

O livro começa em 1947, no pós-guerra. Os quatro protagonistas - Kay, Helen, Viv e Duncan - tentam desesperadamente esquecer-se do passado e lutam para reconstruir suas vidas e se ajustar aos tempos de paz. A narrativa, no entanto, volta no tempo para 1944, e por fim, 1941. É no passado desses personagens que a história atinge sua potência dramática, à medida que mergulhamos em suas memórias e descobrimos os traumas causados pelo conflito. As descrições nítidas de Waters nos transportam para a Londres da guerra e somos absorvidos pelo cotidiano dos personagens enquanto seus segredos e conexões são finalmente revelados.

“Não somos flores para serem colhidas e protegidas, capitão. Somos flores que florescem no mal.”

(Kate Quinn, "A Rede de Alice", p. 245)

A indicação literária do mês é "A rede de Alice", romance da escritora estadunidense Kate Quinn.

Em 1915 Evelyn Gardiner abandona seu emprego de secretária e se torna espiã. Ela é enviada a Lille, região ocupada pelos alemães durante a Primeira Guerra Mundial, e treinada por Lili, a rainha das espiãs, que gerencia a maior e mais eficiente rede de espionagem da guerra, a famosa Rede de Alice. Eve passa a viver uma vida dupla e perigosa, se arriscando para conseguir informações para a Rede de Alice.

Em 1947 Evelyn Gardiner é uma velha ranzinza e solitária, assombrada pelo passado e que afoga a culpa que a consome na bebida. Um dia ela é surpreendida por Charlie St. Claire, uma jovem americana, que bate em sua porta no meio da noite em busca de informações.
Charlie tem 19 anos, é solteira e está grávida. Quando é enviada à Europa com a mãe para "cuidar" de seu “Pequeno Problema” (isto é, para fazer um aborto), Charlie aproveita a oportunidade e foge para Londres atrás de Eve. Sua prima Rose havia desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial, e Charlie está determinada a fazer de tudo para encontrá-la - e Eve foi a última pessoa a ter alguma notícia sobre o paradeiro de Rose. Quando um nome do passado de Eve - ligado a dolorosa traição que destruiu a Rede de Alice - surge em conexão com Rose, as duas mulheres embarcam em uma viagem pela França em busca da verdade.

O romance histórico de Kate Quinn se baseia em fatos reais: a Rede de Alice e sua líder de fato existiram. O livro nos apresenta a experiência dessas mulheres cujas histórias foram esquecidas, que não receberam menções honrosas como os soldados, mas que tiveram a coragem de de arriscar tudo pelo esforço de guerra.

Maio de 2020

“(...) naquele tempo não tinha lido uma só linha de Sanchez Mazas, e seu nome não era para mim mais que o nome brumoso de mais um dos muitos políticos e escritores falangistas que nos últimos anos da história da Espanha tinham sido enterrados aceleradamente, como se seus enterradores temessem que não estivessem de todo mortos.”

(Javier Cercas, Soldados de Salamina, p. 21)

“Soldados de Salamina” é o livro que alçou o romancista espanhol Javier Cercas a fama e deslanchou sua carreira como escritor. Misto de investigação histórica, crônica autobiográfica e romance, o livro trata de um curioso evento que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhola.

Enquanto ainda trabalha como jornalista, Javier Cercas, personagem homônimo do autor, é convidado a entrevistar Rafael Ferlosio, filho do infame Rafael Sanchez Mazas - o fundador da Falange Espanhola, partido de orientação fascista que assumiu o poder durante a ditadura franquista. O filho conta como o pai escapou por um triz de ser fuzilado por soldados republicanos durante a guerra. Mazas conseguiu fugir do Santuário de Santa Maria del Collel, onde estava aprisionado, mas foi encontrado em uma busca por um soldado republicano. No entanto, o jovem decidiu não denunciar sua presença e o deixou escapar. O falangista então foi acolhido por três desertores do exército republicano, e foi só graças a essas intervenções que ele sobreviveu à guerra. Ao ouvir a história, Cercas fica obcecado em descobrir a identidade do “soldado do Collel” e dos “amigos do bosque” que salvaram a vida de Mazas. Ele decide que precisa escrever, não um romance, mas sim a “história verdadeira” do caso.

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e a subsequente ditadura de Francisco Franco (1939-1975) foram períodos de grande trauma para a história espanhola. Contudo, após o processo de redemocratização, a dinâmica em relação a esse passado doloroso foi de “anistia”, ou seja, reconciliação e esquecimento. Assim, “Soldados de Salamina” é um dos livros de autores espanhóis que buscam confrontar a memória desse passado ainda largamente silenciado.

“Tentara descobrir então o que mais temia: ter que falar diante de tanta gente? A responsabilidade de encontrar a tradução correta? Não entender as testemunhas? Ou, ao contrário, entendê-las?”

(Annette Hess, “A Intérprete“, p. 89)

"A Intérprete" narra a história de Eva Bruhns. Para Eva, a guerra é nada mais que uma memória vaga de infância, um capítulo sombrio, mas já encerrado da história alemã. Por isso, quando é anunciado o julgamento de oficiais de Auschwitz, ela sente apenas um interesse passageiro. Inesperadamente, Eva é contratada para traduzir os testemunhos dos sobreviventes poloneses e se choca ao descobrir a verdade sobre as atrocidades cometidas pelos nazistas. Enfrentando a resistência da família e do noivo, Eva deve decidir se quer continuar no processo. Sua determinação de buscar justiça para as vítimas significa que ela terá que enfrentar o passado sombrio da própria família.

Apesar de Eva ser uma personagem ficcional, o julgamento de Frankfurt de 1963 é um marco da história alemã. Foi um processo contra vinte e quatro membros da SS que trabalharam no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Também conhecido como o segundo julgamento de Auschwitz, o processo foi fundamental para expor os crimes dos nazistas e dar voz às vítimas do Holocausto através dos numerosos depoimentos de sobreviventes. Entretanto, devido a limitações da lei alemã, os réus que não mataram prisioneiros por “iniciativa própria” - ou seja, em atos de sadismo e brutalidade - não foram condenados por assassinato, recebendo penas leves. Isso significa que esses homens, que alegaram estar apenas cumprindo ordens, não foram responsabilizados por sua participação no extermínio sistemático dos judeus.

O livro de Hess traz reflexões sobre justiça, responsabilidade, as consequências da passividade em um regime assassino e a importância dos testemunhos. Ela também coloca uma questão relevante no contexto atual: os ressentimentos e ódios que alimentaram o regime nazista desapareceram junto com ele?

Junho de 2020

“Mais de uma vez me avisaram (especialmente homens escritores): ‘As mulheres vão inventar para você. Vão criar’. Mas eu cheguei à conclusão: é impossível inventar isso. Copiar de alguém? Se é possível copiar isso, é só da vida; só ela tem tamanha fantasia.”

(Svetlana Aleksiévitch, “A guerra não tem rosto de mulher“, p. 17)

“A guerra não tem rosto de mulher“ é um livro de não ficção escrito pela jornalista bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, publicado originalmente em 1985. O livro surgiu a partir de uma questão pessoal da autora, que relata a presença marcante da Segunda Guerra Mundial em sua vida, mesmo para ela que nasceu em 1948, após o fim do conflito. Svetlana não escreve sobre a guerra que ficou registrada na história oficial, celebrada nas datas comemorativas, e sim sobre a que foi silenciada: a guerra como foi vivida pelas mulheres soviéticas.

A jornalista entrevistou centenas de mulheres que combateram na Segunda Guerra e registrou seus relatos. O livro combina história oral, jornalismo e literatura, criando uma narrativa polifônica que dá um lugar para que as vozes das depoentes sejam finalmente escutadas. Ao tornar públicas as memórias das mulheres, a jornalista efetivamente reescreve a história da guerra, inserindo nela outra dimensão do passado. De acordo com Aleksiévitch, cerca de um milhão de mulheres combateram no Exército Vermelho. As protagonistas do livro atuaram em todas as frentes, ocupando inclusive espaços tradicionalmente masculinos, e lidaram com pressões, expectativas e violências que não eram vividas pelos homens. Várias das soldadas que foram para o front relatam a discriminação social que sofreram após o fim do conflito por terem assumido esse papel ativo no combate.

Acima de tudo, esse livro privilegia a experiência humana. O objetivo da autora é narrar não os grandes eventos e atos heróicos que povoam a história tradicional e masculina sobre os conflitos, mas sim as pequenas vivências, por vezes mundanas e até mesmo sórdidas. Nas palavras de Svetlana, a história da guerra é a história de “pessoas ocupadas com uma tarefa desumanamente humana”.

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