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Indicação de literatura

Julho de 2020

“Guerra… Guerra não era algo abstrato, inimigo invisível, eram os novos caças saindo das fábricas, era o sangue dos soldados. Viu-a nos olhos dos pilotos kamikazes quando decolavam para encontrar a morte, ouviu-a no rugido dos B-29. Bombardeios, Grummans metralhando o chão… A guerra o agrediu, corroeu sua vida comum.”

(Otohiko Kaga, ”Vento Leste” , p. 447)

Vento Leste, do autor japonês Otohiko Kaga, acompanha a saga da família Kurushima ao longo da Segunda Guerra Mundial. Baseado em parte nas próprias vivências do autor, o livro nos apresenta a diversos aspectos do Japão do período e traz um forte sentimento de amargura quanto à política do país e a matança sem propósito da guerra.

Após a Crise de 1929 e a invasão japonesa da Manchúria, a incipiente democracia que vinha tomando forma no Japão foi sufocada pelo rápido crescimento da direita radical. Gradualmente, o governo foi sendo ocupado por mais burocratas e militares, até que os partidos políticos foram dissolvidos em 1940 e o General Hideki Tojo assumiu como primeiro ministro. Portanto, o governo japonês, era firmemente militarista e amplamente a favor de entrar em guerra com os Estados Unidos, contando com o apoio entusiástico da população.

Assim, a trama gira em torno de Saburo, um diplomata japonês casado com Alice, uma mulher estadunidense, e a missão impossível que lhe é designada: negociar com o presidente dos Estados Unidos e impedir uma guerra entre os dois países. Enquanto isso Ken, um dos filhos do casal, entra para o exército como engenheiro da aeronáutica. Para a família Kurushima, a guerra acontece em três níveis: no plano histórico, entre as duas nações; na própria família, entre o lado japonês e o estadunidense; e também dentro de cada um dos Kurushima, mas especialmente para os filhos. Sua identidade dual, ao mesmo tempo japonesa e americana, é inaceitável em um contexto em que o nacionalismo e a xenofobia foram ainda mais exacerbados pela eclosão de uma guerra em escala mundial.

Agosto de 2020

“Nós precisamos lembrar das coisas que nos foram impostas”

(Kim Hak-Sun)

A nossa indicação é o romance de estreia da escritora norte-americana Mary Lynn Bracht, “Herdeiras do mar”. Nascida na Alemanha, Bracht cresceu em uma comunidade de imigrantes sul-coreanos nos Estados Unidos e seu livro conta a história de duas irmãs coreanas separadas pelo tempo e pela guerra: Hana, em 1943, e Emi, em 2011.

A Coreia foi ocupada pelo Japão de 1910 a 1945. A partir de 1937, os coreanos sofreram uma assimilação cultural forçada para a integração das tradições japonesas, com o banimento do ensino e da fala da língua local, a proibição da literatura nacional e a substituição dos nomes coreanos por nomes japoneses. A partir de 1938, foi instaurado o trabalho forçado dos coreanos e, durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão utilizou a Coreia em seu esforço de guerra contra os Aliados. Em janeiro de 1945, os coreanos eram cerca de 32% da força de trabalho japonesa e, em agosto, quando os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, cerca de 25% dos mortos eram coreanos.

O país ainda permaneceu dividido e ocupado até a Guerra da Coreia na década de 1950, já que, com o fim da Segunda Guerra e a derrota japonesa, o país ficou sob o domínio do bloco vencedor, sobretudo os Estados Unidos e a União Soviética. “Herdeiras do Mar” conta sobre esse momento da ocupação japonesa e do esforço de guerra obrigatório, focando em um aspecto quase nada mencionado na história mundial: Hana se torna uma “mulher de consolo” em 1943 e é levada para a Manchúria, aos 16 anos de idade, para “servir” aos soldados japoneses em um bordel. A história de fundo da narrativa é a de uma tradição antiga ainda viva na ilha de Jeju, da sociedade matriarcal das haenyeo: mulheres coreanas que mergulham no fundo do mar para prover para suas famílias.

“Mulheres de consolo” são uma realidade em todas as guerras e é de fundamental importância, como a própria autora diz, que essas histórias sejam contadas e reconhecidas para que algum tipo de reparação seja possível.

Setembro de 2020

“Enfim, enfim, depois de tantas preces vãs! Mas agora a mão na lucarna se estica na direção dela e com um dedo, com um dedo peremptório, imperioso, lhe faz um sinal para apanhar um pacote. Aquele embrulho é só para ela. Ele lhe é destinado”

 

Em um terra congelada no leste europeu, ao lado de uma floresta, passa uma linha de trem. Todos os dias, uma lenhadora vai até os trilhos ver o trem passar e sonha com as mercadorias que ele carrega - com uma vida de fartura, diferente da miséria que ela e o marido suportam todos os dias. Até o dia em que um pacote é arremessado do trem. A mercadoria, ela descobre, são os judeus deportados. E seu pacote é uma menininha judia, arremessada do trem pelo pai, que esperava salvá-la, de alguma maneira, do destino que os espera quando o trem chegar em Auschwitz.

“A Mercadoria Mais Preciosa“ é uma fábula sobre o Holocausto, escrita pelo dramaturgo francês Jean-Claude Grumberg. Em 1942, Grumberg escapou da deportação, mas perdeu o pai nos campos de concentração. De acordo com o próprio autor, esse foi um trauma que o acompanhou por toda sua obra. Por meio dessa fábula, ele aborda a questão de uma nova maneira. Misturando fatos e ficção, ao final do conto, o próprio autor nega a história que acabou de contar. Nunca existiu uma lenhadora, nem a criança e nem seu pai. E tampouco qualquer um dos deportados, pois não existiram os trens que os levavam até os campos e nem mesmo os campos de extermínio.

Assim, a fantasia da fábula reflete um fato doloroso sobre a vivência do Holocausto - a dificuldade de conceber que algo assim possa mesmo ter acontecido e a dificuldade dos sobreviventes de transmitir sua experiência. E por isso, Grumberg conclui sua narrativa afirmando que a única coisa verdadeira em sua fábula são os sentimentos dos personagens: o desespero e o amor do pai, o oportunismo dos colaboradores, o acolhimento incondicional da lenhadora, que arrisca a própria vida para salvar a menina. A única verdade da história é sua dimensão humana.

Outubro de 2020

“Sei que isso é loucura, mas, às vezes, eu queria ter ido para Auschwitz com meus pais, pra saber o que eles passaram. Acho que me sinto culpado por minha vida ter sido mais fácil que a deles”

 

Nossa indicação de literatura do mês é “Maus: a história de um sobrevivente”, uma história em quadrinho escrita pelo autor estadunidense Art Spiegelman, em que ele narra a história do pai, Vladek, um sobrevivente de Auschwitz. Inicialmente, a história foi serializada de 1980 a 1991, e publicada como um livro em dois volumes em 1986 e 1991, devido a repercussão que alcançou. Maus é, sem dúvida, um dos quadrinhos mais famosos sobre o Holocausto e uma de suas características mais memoráveis é a representação dos personagens como animais antropomórficos. Na narrativa, os judeus são representados como ratos - uma alusão a maneira como eram recorrentemente figurados na propaganda antissemita - e os nazistas como gatos.

A maior parte da narrativa é composta pelo relato do pai. No entanto, o autor também aborda a própria vida, falando de sua infância, da relação muitas vezes complicada com o pai, da perda da mãe e do processo de escrita do quadrinho. O que fica claro é que o trauma do Holocausto perpassa também a vida do próprio Spiegelman, mesmo sendo algo que ele não viveu. É importante apontar que a narrativa de ficção tem características muito diferentes da narrativa histórica. Por isso, no que diz respeito a eventos traumáticos, a ficção pode ser um meio muito potente para falar sobre o trauma. Um dos motivos que torna Maus uma história tão marcante é que, através dos quadrinhos, o autor pode expressar com maior liberdade toda a carga sentimental do passado traumático que ainda está vivo na memória.

Novembro de 2020

“Assim, os vinte e quatro não se chamam nem Schnitzler, nem Witzleben, nem Schmitt, nem Finck, nem Rosterg, nem Heubel, como a certidão de nascimento nos incita a crer. Eles se chamam BASF, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telefunken. É por esses nomes que nós os conhecemos. [...] E os vinte e quatro homens presentes no palácio do presidente do Reichstag, neste 20 de fevereiro, não passam de mandatários, o clero da grande indústria; são os sacerdotes do Deus Ptá. E se mantém lá, impassíveis, como vinte e quatro máquinas de calcular nas portas do inferno.”

 

A Ordem do Dia, do escritor e diretor de cinema francês Éric Vuillard lhe rendeu o Goncourt, um dos maiores prêmios literários da França. Neste livro de ficção histórica, o autor constrói uma narrativa curta, mas incisiva, sobre dois momentos históricos importantes: o primeiro, a reunião dos grandes líderes da indústria alemã com representantes do Partido Nazista em 1933 para angariar fundos para campanha; o segundo, a Anschluss, a anexação da Áustria ao Reich, em 1938.

Vuillard dá destaque aos personagens envolvidos nesses episódios, explorando através da ficção suas expectativas, cálculos e reações emocionais. Criando um efeito similar ao de uma lente de aumento, o que ele nos apresenta é a mediocridade e complacência dos que estavam no poder, que não se prestaram a colocar a menor resistência à pretensão de dominação total dos nazistas. Ainda que em retrospectiva seja fácil para nós identificar o caminho para a destruição, o fato incômodo sobre o qual o autor busca refletir é como o poder é um lugar confortável para os que o ocupam. No caso da anexação, o acordo com os nazistas é uma capitulação, mas o que importa é que o equilíbrio de forças se mantenha. E, quanto ao poder financeiro, ele é, ao fim e ao cabo, sempre compatível com o poder político. O regime nazista é apenas mais um na lista, a ordem do dia. Afinal de contas, como aponta o autor, a guerra é uma empresa rentável, e todos os grandes nomes sobreviveram ao Terceiro Reich.

Dezembro de 2020

“Você vai ter que me perdoar. Sou uma refugiada do passado e, como outros refugiados, repasso os costumes e hábitos de vida que deixei ou fui obrigada a deixar para trás, e tudo aquilo parece igualmente antigo e curioso, visto daqui, e sou igualmente obsessiva a respeito disso. [...] Sou uma lacuna, aqui, entre parênteses. Entre outras pessoas”

 

Escrito pela autora canadense Margaret Atwood e lançado em 1987, “O Conto da Aia” é uma aclamada obra de literatura que, recentemente, ganhou os holofotes com uma nova edição lançada em 2017 e com a produção de uma série homônima no canal de streaming Hulu. No livro, acompanhamos a jornada de June, nossa narradora, que é uma mulher casada e mãe, mas torna-se uma Aia no recém proclamado regime de Gilead. A partir das suas memórias, June tece um relato sobre a sua experiência como Aia na casa de seu Comandante e da esposa, Serena Joy. Por meio dos pensamentos da narradora, temos um vislumbre sobre o que é esse novo regime político instaurado nos Estados Unidos e podemos conhecer sobre as angústias da personagem que, em sua nova condição social, é obrigada a ter relações sexuais com seu Comandante para dar a ele e à esposa um filho.

Gilead, como é apontado nas Notas Históricas ao final do livro, é um regime totalitário que, a partir de uma lei superior cuja legitimidade supostamente repousa na Bíblia, reordena toda a sociedade estadunidense para purificar os seus pecados. Assim, novos papéis sociais são estabelecidos e cada pessoa - principalmente, cada mulher - passa a se enquadrar em algum deles: Aia, Marta, Esposa, entre outros. June vive o momento de transição entre o regime anterior e o de Gilead, enfrentando as dificuldades do descompasso entre as suas concepções de mundo e àquelas impostas pelo novo governo. Por meio da sua voz, Atwood cria um mundo ficcional, porém não tão distante da nossa realidade, que traduz de maneira sensível e realista a vivência de uma mulher oprimida em um regime totalitário pautado por preceitos religiosos, machistas e misóginos.

🎙 Tem episódio do Desnazificando sobre essa obra, já ouviu?

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